Desmistificando a lenda de uma alma imortal

8 de setembro de 2013

Eclesiastes e a vida após a morte


O Testemunho de Eclesiastes  - O livro de Eclesiastes certamente que desperta uma grande curiosidade por parte dos leitores. As filosofias do “sábio”, filho de Davi (cf. Ec.1:1), sobre a vida pós-morte, apresenta uma grande recusa da possibilidade de existir vida em um estado intermediário antes da ressurreição. Do início ao fim de Eclesiastes, vemos que Salomão segue um princípio e segue essa linha em seus pensamentos. A lógica presente no livro é que não existe vida após a morte. A partir disso, é comum vermos o autor igualar a morte dos homens com a dos animais, por exemplo:

“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20)

A razão pela qual os homens não terem vantagem nenhuma sobre os animais é que o destino dos dois é o mesmo após a morte. Nisso fica claro que Salomão não cria em uma natureza dualista do ser humano, com uma alma imortal que o diferenciasse dos animais. Isso implicaria em uma evidente vantagem dos homens sobre os animais! Aliás, já vimos que até aos animais foi designado o mesmo termo “nephesh hayyah” que foi designado aos seres humanos (cf. Gn.2:7; Gn.1:20).

No original hebraico a palavra aqui utilizada por Salomão (cf. 3:19) é ruach-espírito. Os seres humanos possuem o mesmo espírito-ruach dos animais e, por isso, não possuem nenhuma vantagem sobre eles. Isso nos mostra claramente que o nosso espírito-ruach não é uma “alma imortal” ou algo que garanta imortalidade levando consigo consciência e personalidade após a morte, pois, se assim fosse, o espírito-ruach dos humanos seria gritantemente diferenciado do espírito-ruach dos animais, e Salomão não os igualaria.

É evidente que em vários aspectos temos vantagens sobre eles; quando, porém, a questão é a natureza e destinos pós-morte, ambos são absolutamente igualados (cf. Ec.3:19):

ESPÍRITO DO HOMEM E DOS ANIMAIS
DESTINO DO HOMEM E DOS ANIMAIS
MATERIAL DO QUAL FORAM FEITOS
CONCLUSÃO
O mesmo (cf. 3:19)
O pó da terra (cf. 3:20)
Feitos do pó (cf. 3:20)
A vantagem de homens sobre animais no quesito de natureza e destinos pós-morte não é nenhuma (cf. 3:19)

Seguindo essa linha de raciocínio, Salomão diz também que o destino pós-morte dos tolos é o mesmo do sábios (cf. Ec.2:15), que o sábio morre do mesmo jeito que o tolo (cf. Ec.2:16), que o destino dos justos é o mesmo destino dos ímpios (cf. Ec.2:14), que o destino dos homens é o mesmo dos animais (cf. Ec.3:19), e que todos vão para o mesmo lugar após a morte (cf. Ec.3:20): “E, ainda que vivesse duas vezes mil anos e não gozasse o bem, não vão todos para um mesmo lugar?“ (cf. Ec.6:6); “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento” (Ec.9:2).

Salomão não diferenciava o destino dos justos e dos ímpios, tampouco com o dos animais, porque não cria em uma alma imortal deixando o corpo na morte. Ele não acreditava em uma alma imortal que era julgada no momento da morte com destinos diferentes, não existia uma recompensa logo após a morte: o destino de ambos era o mesmo.

“Assim que também isto é um grave mal que, justamente como veio, assim há de ir; e que proveito lhe vem de trabalhar para o vento... Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção” (cf. Eclesiastes 5:16,18).

Com a realidade da ressurreição dentre os mortos, é comum vermos os escritores do Novo Testamento proferirem que a recompensa será dada a cada um no momento da segunda vinda de Cristo (cf. Mt.16:27; Ap.22:14; 1Pe.5:4; 5; Lc.14:14; 2Tm.4:1), que é quando os mortos serão ressuscitados (cf. 1Co.15:22,23; 1Ts.4:15), para aí entrarem no gozo do Paraíso (cf. Jo.14:2-4; 1Ts.4:15). Salomão não acreditava na vida imediatamente após a morte e não tinha o foco centrado na ressurreição como os escritores do Novo Testamento tinham, razão pela qual, ao invés de escrever focado no momento da ressurreição (como faziam os escritores neotestamentários), escrevia focado naquele estágio imediatamente após a morte, antes da ressurreição, que é um estado sem vida.

Mais significativo ainda do que isso são as comparações que Salomão faz: “Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele” (cf. Ec.6:3). Qualquer leitor honesto concluirá que, para Salomão, uma criança abortada é sinal de alguém que perdeu totalmente o dom da vida. Se ela tivesse automaticamente uma vida no Paraíso ou em algum lugar garantida entre os salvos, não valeria tal comparação que Salomão faz neste verso.

E ele continua: “Porquanto debalde veio, e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu nome. E ainda que nunca viu o sol, nem conheceu nada, mais descanso tem este do que aquele” (cf. Ec.6:5). A vantagem de um aborto sobre os vivos não baseava-se em possuir automaticamente uma vida eterna com Deus, mas sim decorrente do fato de que “nunca veria o sol”. Entender o pensamento de Salomão é de fundamental importância para compreendermos a revelação no livro de Daniel:

“E muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2).

Outra comparação que Salomão faz é relatada em Eclesiastes 9:4, que diz que um cão vivo vale mais do que um leão morto: “Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto!” (cf. Ec.9:4). É claro que se os mortos estivessem vivos gozando de bem-aventuranças então um leão morto valeria muito mais do que um cão vivo! Como Salomão não acreditava em vida após a morte, então mesmo um “leão”, se estivesse morto, valeria menos até mesmo em relação a um “cão” vivo!

Vale ressaltar também que, para Salomão, nós [os que estamos “debaixo do sol”] somos os únicos vivos. Não existem vivos em algum outro lugar. Quem está entre os vivos somos nós, que ainda temos esperança. O verso seguinte também elucida o anterior mostrando o porquê do cão vivo valer mais do que um leão morto: porque os mortos não estão cônscios de coisa alguma:

“Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento. Também o seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol” (cf. Eclesiastes 9:5,6)

Aqui Salomão apenas reitera aquela linha de raciocínio que ele já mantém desde o início de seu livro, desta vez de forma ainda mais direta: os mortos não sabem de coisa nenhuma (cf. Ec.9:5), tem a memória entregue ao esquecimento (cf. Ec.9:5), e sentimentos de amor, ódio e inveja já pereceram (cf. Ec.9:6). Como os imortalistas respondem a evidência de Eclesiastes? A maioria afirma que tudo isso se limita ao que acontece “debaixo do sol”. A expressão “debaixo do sol” se refere realmente ao nosso mundo; porém, Salomão a usou porque na mente dele não há a mínima ideia de que os mortos cheguem a outro lugar! Os hebreus não pensavam como os gregos. De fato, Salomão fala muito das coisas que acontecem “debaixo do sol”, como em Eclesiastes 9:6:

“Amor, ódio e inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol(v.6)

Aqui ele diz que as coisas que acontecem debaixo do sol (tais como amor, ódio e inveja) já não são possíveis para os mortos, que não sabem de “coisa nenhuma” (v.5). Ele não está dizendo que os mortos não desfrutam de amor, ódio e inveja debaixo do sol, mas sim que os sentimentos de amor, ódio e inveja não são possíveis aos que já morreram, mas apenas aos que estão debaixo do sol, isto é, aos vivos. As interpretações tendenciosas dos imortalistas em suas tentativas de negarem o óbvio do texto bíblico se mostram completamente fracassadas quando se deparam com uma interpretação de texto simples e ao mesmo tempo precisa.

Se, portanto, o sentimento de amor só está presente entre os vivos, ou seja, entre aqueles que estão debaixo do sol, então só nos restam duas alternativas: ou os mortos estão realmente inconscientes, isto é, sem vida; ou, então, eles estão vivos em algum lugar e não tem amor por ninguém! Qual é o mais provável? Que o sentimento de amor já não exista entre os mortos ou que ele não exista exatamente porque são os próprios mortos que não estão com vida?

Além disso, é extremamente impreciso dizer que Salomão só se preocupava com os vivos, pois ele fala também com relação à vida no além, fala do estado dos mortos:

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma (cf. Eclesiastes 9:10)

Fica claro que também no além, na “habitação dos mortos”, não existe qualquer atividade ou sabedoria. O original hebraico traz neste verso a palavra “Sheol”, transliterado para Hades no grego do NT. Para os defensores da imortalidade, este lugar é referência a “habitação consciente dos espíritos”. Salomão liquida com isso usando as palavras hebraicas ma`aseh', cheshbown e chokmah, que de acordo com a Concordância de Strong, tais palavras transliteradas demonstram que os mortos:

(1) Não tem nenhum conhecimento, obras ou atividade [ma`aseh][1]
(2) Não tem inteligência e nem dispositivo de razão [cheshbown][2]
(3) Não tem sabedoria, habilidade e nem inteligência [chokmah][3]

Evidentemente um estado de completa inconsciência.

O Espírito Santo não “inspirou errado” o livro de Eclesiastes, e tentar negar todas as evidências deste livro como prova contra a imortalidade da alma é no mínimo estar com a mente totalmente fechada para o conteúdo geral do livro, é negar todo um raciocínio que o autor mantém desde o princípio de seu livro. Fica claro, diante de todas as evidências, passagens bíblicas, bem como a linha de raciocínio que Salomão segue desde o seu início, que ele não cria de maneira nenhuma em qualquer “alma imortal” que sai do corpo no instante da morte. A visão de Salomão não é única, mas reflete uma regra do AT: não existe a imortalidade da alma.

Outro argumento bastante utilizado por alguma parte dos defensores da imortalidade intrínseca com relação ao livro de Eclesiastes é que ele não acreditava que pudesse existir vida em qualquer era futura. Sendo assim, o argumento deles é que, se nos basearmos no livro de Eclesiastes como evidente prova contra o estado intermediário, teríamos que negar também qualquer vida futura – até mesmo por meio de uma ressurreição – porque (segundo eles) Salomão não acreditava em nenhum tipo de vida para nenhuma era.

Esse argumento falha em dois pontos principais. Em primeiro lugar, porque seria o mesmo que negar que o Espírito Santo dirigia Salomão em seus ensinamentos. Se o Espírito Santo dirigia os ensinamentos dele e ele conta um “engano”, seria o mesmo que afirmássemos que o Espírito Santo “inspirou errado” e escreveu mentiras e enganações na Bíblia Sagrada, o que é um ultraje contra a divindade. Se, contudo, tomarmos o outro ponto (de que Salomão não estava inspirado), então deveríamos também negar a Bíblia como regra de fé, pois ela não seria considerada “segura” em seus ensinamentos.

Afinal, se Salomão pôde escrever bobagens e ensinar doutrinas erradas e antibíblicas aos seus leitores – e está na Bíblia – quem pode nos garantir que não existam outros vários erros doutrinários presentes nos demais livros que também fazem parte do cânon bíblico? A única maneira de salvaguardar a inspiração das Escrituras e a infalibilidade (segurança) doutrinária dela é admitindo também a inspiração de Eclesiastes no mesmo nível dos demais livros.

Ademais, se Salomão errou ao escrever isso, deveríamos também negar que toda a Escritura (incluindo Eclesiastes, é claro) seja divinamente inspirada, e deste modo estaríamos chamando o apostolo Paulo de mentiroso, pois ele afirmou que toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (cf. 2Tm.3:16), e não apenas parte dela.  Aqui vemos que a Escritura é útil não somente para aperfeiçoar o caráter das pessoas (como alguns pensam), mas também como “ensino”, isto é, em questões doutrinárias.

Em segundo lugar, é um completo equívoco dizer que Salomão desacreditava completamente que os mortos ressuscitariam um dia. Tão certo como ele desacreditava completamente em que os atuais mortos já estivessem vivos em sua época em algum tipo de “estado intermediário” (cf. Ec.9:5,6; 9:10), também é certo que ele sabia muito bem que Deus haveria de julgar a cada um pelo que fez e lhes conceder uma vida eterna (aos justos). De fato, Salomão fala da "eternidade" no coração humano (cf. Ec.3:11) e de imortalidade quando ele declara que o homem um dia irá "à casa eterna" (cf. 12:5).

Ele enfatiza também que devemos temer ao Senhor porque num certo dia "de todas estas coisas Deus nos pedirá contas" (cf. 11:9). A realidade do dia do Juízo quando estaremos diante de Deus é reiterada por ele no capítulo seguinte, quando ele conclui o livro dizendo que “Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal” (cf. Ec.12:14). Isso é claramente uma menção ao juízo que acontece na segunda vinda de Cristo. Portanto, a partir de Eclesiastes, podemos perceber o que é abaixo relatado:

VIDA TERRENA
ESTADO INTERMEDIÁRIO
RESSURREIÇÃO (JUÍZO) PARA A VIDA ETERNA
A breve vida em que passamos “debaixo do sol”
Um estado em que os mortos se encontram atualmente e que Salomão define como “sem inteligência, razão, conhecimento ou sabedoria” (cf. 9:10), e que “os mortos não estão cônscios de coisa alguma” (cf. 9:5), sendo que os sentimentos como “amor, ódio e inveja já pereceram” (cf. 9:6)
Um estado de vida em que Salomão acentua que estaremos em “moradas eternas” (cf. 12:5) e que certamente passaremos pelo juízo de Deus que nos julgará por tudo o que fizermos (cf. 11:9; 12:14)

Outra prova clara de que o livro de Eclesiastes não contradiz o restante dos ensinamentos bíblicos neotestamentários é o fato de que ele próprio escrevia sabendo que o espírito retornava para Deus por ocasião da morte: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volta a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7). Este ensino não é contrário ao do NT, pelo contrário, corresponde exatamente ao ensino neotestamentário: “Pai ao Senhor entrego o meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46). Note que o que Salomão declara em Eclesiastes é exatamente aquilo que é confirmado pelo NT. Salomão, que sabia muito bem que o espírito subia para Deus, afirmava também categoricamente, neste mesmo livro, que os mortos não estão conscientes de coisa alguma (cf. Ec.9:4,5; 9:10) e que o homem possui o mesmo espírito-ruach dos animais, tendo o mesmo destino que eles tem ao morrerem (cf. Ec.3:19).

A palavra usada no original hebraico de Eclesiastes 9:10 é “Sheol”, que para os imortalistas é a morada dos espíritos, que se localiza nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9; Mt.12:40; Mt.11:23). Tanto isso não é verdade que Salomão afirma que o espírito [de todos] sobe para Deus (cf. Ec.12:7), e sabia que neste local não existia nenhum tipo de sabedoria ou conhecimento (cf. Ec.9:10), que os mortos não sabiam de nada (cf. Ec.9:5), e iam todos [justos ou ímpios] para o mesmo lugar após a morte (cf. Ec.3:20).

Em outras palavras, Salomão sabia que o espírito subia para Deus, mas também sabia que não tinha parte alguma com alguma “entidade viva e consciente” que nós levamos conosco após a morte. Vemos claramente que Salomão não contraria os ensinos neotestamentários, ao contrário, concorda com eles:

ECLESIASTES
NOVO TESTAMENTO
“E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volta a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7)
“Pai ao Senhor entrego o meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46)
RESULTADO
RESULTADO
Mesmo assim os mortos não sabem de nada (cf. 9:5) e não tem amor, ódio ou inveja que já não existem para eles (cf. 9:6), que não tem inteligência, razão, conhecimento ou sabedoria (cf. 9:10)
Mesmo assim Jesus não havia subido ao Pai mesmo três dias depois de ter sido ressuscitado (cf. Jo.20:17)

Sendo assim, Eclesiastes não representa nenhuma contradição com o restante da Bíblia e podemos chegar à fácil conclusão de que o Espírito Santo não inspirou errado nenhum escritor bíblico. Tal testemunho de Eclesiastes reflete todo o pensamento do Antigo e do Novo Testamento, como veremos mais adiante. Tudo o que Salomão fez, e que comprovamos até aqui, é negar absolutamente qualquer imortalidade da alma em um estado intermediário, pois ele não havia sido influenciado pela filosofia grega de dualismo que viria mais tarde.

Embora seja verdade que ele ressaltasse muito mais o período sem vida entre a morte e a ressurreição, também é fato que ele cria que um dia viria o juízo (cf. Ec. 11:9; 12:14) e uma vida eterna (cf. Ec.12:5). Portanto, ele pode ser usado como prova de alguém que cria em vida futura após o juízo, mas não cria na imortalidade da alma, pois não aceitava um estado já consciente dos mortos atuais em algum estado intermediário entre a morte e a ressurreição.

O “espírito” que subia para Deus (cf. Ec.12:7) não era uma alma imortal, mas a própria vida humana de todos os homens, justos ou pecadores. Por isso, alegar em cima desta passagem a “imortalidade da alma” significa negar todo o restante do livro de Eclesiastes que explicitamente nega isso, e também inferir que os ímpios assim como os justos estarão com Deus após a morte, quando apenas os justos deveriam estar com Ele. Afinal, segundo Salomão é o espírito de todos os homens que volta a Deus após a morte, e não apenas o dos justos ou daqueles que merecem o Céu (cf. Ec.12:7).

Sendo assim, é correto afirmar que Salomão não via o espírito como sendo uma alma imortal ou alguma entidade incorpórea e consciente que leve consigo personalidade e racionalidade após a morte, motivo pelo qual ele declara que os animais possuem exatamente o mesmo espírito-ruach possuído pelos seres humanos (cf. Ec.3:19) e, por conta do fato de que o espírito presente em ambos serem o mesmo, o destino de ambos após a morte também seria o mesmo: o pó da terra (cf. Ec.3:20).

O que nos distingue dos animais no que tange à vida após a morte, tanto para Salomão como também para os demais escritores bíblicos, não é que nós sejamos possuidores de uma alma-nephesh e os animais não, ou que nós sejamos detentores de espírito-ruach e os animais não, mas sim que nós ressuscitaremos do pó, e os animais não. Por isso ele diz em Eclesiastes 3:21 que o nosso espírito volta para Deus (que soprará novamente em nós pela ressurreição, tornando-nos novamente “almas viventes”), mas o dos animais volta à terra (de onde não tem mais volta).

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli.


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[1] Léxico da Concordância de Strong, 4639.
[2] Léxico da Concordância de Strong, 2808.
[3] Léxico da Concordância de Strong, 2451.
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2 de setembro de 2013

O destino final do diabo


O destino final do diabo – Os demônios, assim como os seres humanos ímpios, serão atormentados no geena pelo tanto correspondente aos seus pecados, e, em seguida, aniquilados na segunda morte, que é o lago de fogo. Esse destino final do diabo, que inclui o tormento por certo tempo e também o aniquilacionismo final, é evidente na fala do próprio diabo em dois textos bíblicos, um relatado por Mateus e outro por Marcos, onde os demônios dizem:

“E eis que clamaram, dizendo: Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?” (cf. Mateus 8:29)

“Dizendo: Ah! que temos contigo, Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus” (cf. Marcos 1:24)

Isso nos mostra que o próprio diabo sabe que o destino final dele é tanto o tormento como a destruição. “Destruição”, neste contexto, não pode se referir a uma mera “perdição”, como vertem outras traduções, precisamente porque o diabo já está perdido, ele já não tem volta, não tem mais possibilidade de conversão ou salvação. Portanto, esse acontecimento futuro, de que trata o texto, não é destruição no mero sentido de “perdição” ou “ruína” (a qual o diabo já está), mas no sentido completo de destruição, que é o aniquilamento, o qual o diabo estará no futuro. Portanto, os textos de Mateus 8:29 e de Marcos 1:24 são complementares, e nos evidenciam exatamente isso, de que os demônios serão atormentados e finalmente completamente destruídos.

Esse destino final de Satanás também está claro no texto de Ezequiel 28:18-19, que em primeira instância refere-se ao rei de Tiro, mas que a grande maioria dos teólogos concorda que seja uma profecia de dupla referência, aplicada também ao próprio diabo, já que na profecia há a menção de ele estava no Jardim do Éden (v.13), que era perfeito (v.12), que era um querubim guardião (v.14), que estava no monte santo de Deus (v.14), que era inculpável em seus caminhos até que se achou maldade nele (v.15) e que foi expulso do monte santo de Deus (v.16), sendo atirado à terra (v.17). Todas essas coisas nunca aconteceram com o rei de Tiro, que sempre havia sido pagão, que nunca esteve no Jardim do Éden ou no monte santo de Deus, que não era um querubim e nem era perfeito, além de já estar na terra e não ter sido “atirado” nela depois que pecou. Essas coisas não se aplicam diretamente ao rei de Tiro, mas a Satanás.

E qual é o final que Deus diz que Satanás terá?

Ele não poderia ter sido mais claro. Além de em momento nenhum ter dito que passaria por um tormento eterno, ainda afirma que sairá dele um fogo que o consumirá (v.18), que será reduzido às cinzas (v.18), e, como se isso não fosse suficientemente claro, ainda afirma no verso 19: “chegou o seu terrível fim, você não mais existirá (v.19)! Ele não diz que o diabo “não existe”, mas que “não mais existirá”, mostrando que a descrição em tempo real retratava algo já presente na mente de Deus (que é eterno), mas que somente se consumaria de fato em aspecto temporal com o diabo no futuro. A descrição de ser consumido pelo fogo, de se reduzir às cinzas no chão, de ter um fim completo e de não mais existir não nos deixa a menor sombra de dúvida de que o diabo não subsistirá eternamente (vivo) em um lago de fogo, mas que, realmente, “não mais existirá”!

A mesma coisa acontece em Isaías 14, na famosa descrição que diz: “Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações!” (cf. Is.14:12). O que poucos notam, contudo, é que mais adiante vemos Deus dizendo que ele se tornaria um “cadáver pisoteado” (v.19), e não alguém que viveria eternamente. Assim, entendemos que as descrições bíblicas que tratam do destino do diabo sem estarem ligadas a um único texto isolado e em um contexto apocalíptico hiperbólico nos deixam clara a ideia de um aniquilacionismo do diabo, ao invés da existência eterna dele.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”


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1 de setembro de 2013

Nós somos uma alma ou possuímos uma?


I–Conceitos com relação à alma

Dualismo – A visão do ser humano no contexto imortalista é que este possui uma natureza dualista, isto é, tem um corpo e possui uma alma [nephesh, no hebraico, psiquê, no grego], que seria imortal e estaria presa dentro do corpo e que é liberta por ocasião da morte deste, indo imediatamente para o Céu ou para o inferno, durante toda a eternidade. Na ressurreição, apenas o corpo morto ressuscita, pois a alma imortal já está lá, liberta do corpo, há muito tempo, religando-se a este por ocasião da ressurreição dos mortos que se dá no momento da segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).

Essa é a visão dualista da natureza humana, de imortalidade da alma. Noutras palavras, você é uma pessoa que tem outra “pessoa” dentro de você. A visão tricotomista do ser humano ensina o mesmo contraste dualista de corpo e alma e prega que nós somos um espírito, possuímos uma alma e moramos em um corpo. Portanto, ambas as visões – dualista e tricotomista – serão refutadas da mesma forma, visto que possuem os mesmos conceitos básicos sobre a constituição da natureza humana.

Holismo – O conceito holista da natureza humana prega, ao contrário da imortalidade, que o ser humano não tem uma alma: ele é uma alma. Ele vive como uma alma, ele morre como uma alma. Uma alma vivente significa apenas um “ser vivo”. Nós não temos uma alma imortal presa dentro do nosso corpo que é liberta por ocasião da morte. A morte é o último inimigo a ser vencido (pelo fator “ressurreição”), e não o libertador da “alma imortal” (cf. 1Co.15:26). Pessoas morrem, pessoas ressuscitam.

Corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa e não pessoas separadas. O espírito é o princípio ativador da vida, é aquilo que dá animação ao corpo, é o sopro de Deus por meio do qual respiramos e somos seres (almas) viventes. É esse o simplismo bíblico sobre a criação da natureza humana, que elimina os complexos malabarismos propostos por Platão em sua tese sobre a natureza dualista e a sobrevivência da alma após a morte em um estado consciente.


II–Qual é o conceito correto?

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7)

Eis aí a passagem bíblica acerca da criação do ser humano, que nos dá um perfeito entendimento dos conceitos bíblicos de corpo, alma e espírito. É aqui que entra em cena algo muito desconhecido pela maioria das pessoas: biblicamente, o homem não tem uma alma, ele é uma alma. Ele “TORNOU-SE” uma alma e não “obteve” uma!  A alma é o que o homem passou a ser, e não o que ele obteve de Deus. O corpo é a alma em sua forma exterior. A ideia hebraica de personalidade é a de um corpo animado pelo fôlego de vida (espírito) que alimenta o corpo, e não de uma alma presa dentro deste corpo. Assim, podemos entender que:

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma vivente [alma] (cf. Gênesis 2:7 – grifo meu)

A passagem bíblica que relata a criação do ser humano também nos deixa um sentido claro de corpo, alma e espírito. Nenhum é um elemento que Deus implantou no homem, imaterial e imortal, que saia dele após a morte, com consciência e personalidade. O espírito é tão somente o fôlego de vida que Deus soprou em nós e que o possuímos pela duração de nossas vidas terrenas. Nós permanecemos com este fôlego que nos concede respiração para continuarmos vivos durante a nossa existência terrestre, mas, quando este sopro se vai, as “almas viventes” tornam-se “almas mortas”.

O que retorna a Deus é o princípio de vida que ele soprou em nós a fim de conceder animação ao corpo formado do pó, e não uma alma imortal. Este princípio animador da vida é possuído tanto por homens como por animais (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29). Este princípio é garantido tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua existência terrena. A alma, no conceito bíblico, é que o ser humano “tornou-se” e não “obteve”. Deus não colocou uma alma no homem. Por isso mesmo, morrendo o homem, morre a alma (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21).

Já a visão dualista em sua totalidade defende que o sopro de vida que Deus soprou em nossas narinas é a própria alma imortal implantada no ser humano. Sendo assim, o sopro de Deus em nossas narinas é o espírito (alma) imortal implantado nele, totalmente independente do corpo, preso dentro dele e liberto após a morte, com consciência e personalidade. Sendo assim, a narrativa de Gênesis 2:7 deveria ser entendida da seguinte maneira:

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito/alma imortal], e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7 – grifo meu)

Essa é, contudo, uma interpretação tendenciosa que deturpa completamente a clareza do texto bíblico. Não é necessário ser nenhum grande teólogo para perceber que tal interpretação é inválida pelo fato que adultera os sentidos primários de corpo, alma e espírito, que são deixados de maneira bem clara na narrativa da criação da natureza humana em Gênesis 2:7. Além de ignorar o fato de que a primeira vez que alma [nephesh] é mencionada na Bíblia é relacionado ao próprio ser humano como um todo, tornando-se uma alma e não obtendo uma, também altera nephesh para o meio do versículo quando na realidade ela é claramente relacionada ao final deste. Tudo não passa de uma completa manipulação bíblica textual.

A passagem da criação do homem coloca nephesh no fim do verso, e não no meio como querem os imortalistas. A alma é o que o homem “tornou-se”; o “espírito” é o que foi soprado nele para dar animação ao corpo formado do pó. Pelo fato de Deus não ter revelado a Moisés uma realidade dualista do ser humano, este narra simplesmente o princípio animador da vida dando animação a uma “alma vivente”. Esse total simplismo bíblico nega inteiramente que a natureza humana seja dualista, composta por uma alma imortal e por um corpo mortal. A revelação de Deus a Moisés incluiu apenas um corpo proveniente do pó tornando-se animado, sem qualquer tipo de alma sendo ingerida dentro da substância corporal para lhe conceder imortalidade.

Com a implantação do sopro de Deus em nossas narinas, o homem tornou-se uma “alma vivente”, e não uma “alma imortal”! Ora, se a interpretação correta fosse a dualista, então a sequência imediata de tal passagem seria que o homem tornou-se (ou melhor, “obteve”) uma “alma imortal”, “imaterial”, pois o termo “alma vivente” após a implantação do espírito-ruach implica que pode se tornar “alma morta” após a retirada do espírito-ruach. Isso é somente lógica.

Quando a Bíblia diz que em resultado do sopro divino “o homem tornou-se uma alma vivente”, ela está dizendo apenas que o corpo formado literalmente do pó da terra ganhou animação e se fez um ser vivo, que respira – nada além disso. O sangue (vitalidade da alma – cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5) começou a circular, o cérebro começou a raciocinar e o coração a bater, com todos os sinais ativados. O homem tornou-se uma “alma vivente”, ou seja, ou ser vivo, que deixa de existir na morte e volta à existência na ressurreição gloriosa.

Não houve um componente imaterial e imortal colocado no ser humano. Declarado em termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”! Evidentemente a alma é considerada “vivente” enquanto vive, passando a ser “alma morta” por ocasião da retirada do fôlego de vida [espírito] no falecimento. Uma alma vivente significa simplesmente um ser vivo, que morre. Alma é vista como a natureza humana como um todo, e não como uma parte do ser humano separada do corpo e presa dentro deste.

A forte tentativa de ignorar o simplismo bíblico no relato da criação humana não provém de alguma razão teológica (de fato, os imortalistas fazem de tudo para colocar uma “alma imortal” no relato da criação onde não aparece nada disso), mas sim porque negam em aceitar o fato óbvio de que a narração da criação traz uma natureza holista e não dualista do ser humano. Isso, evidentemente, os faria negar a sua crença de que Deus tenha implantado no homem um elemento eterno lhe concedendo imortalidade, o que daria um fim na doutrina do “estado intermediário” e do tormento eterno.

Que nephesh não é o próprio espírito [ruach, no hebraico] implantado no ser humano com imortalidade e personalidade, isso fica muito bem claro na Bíblia Sagrada, embora sejam coerentes em alguns de seus sentidos secundários. A ignorância em aceitar o sentido claro de corpo, alma e espírito de acordo com a Bíblia segundo Gênesis 2:7 causa, além de adulterações no sentido do texto, uma confusão ainda maior para solucionar os problemas depois, por causa da interpretação tendenciosa e errônea por parte dos dualistas.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”


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