Desmistificando a lenda de uma alma imortal

29 de agosto de 2013

O que é o lago de fogo?


O lago de fogo – Muita confusão tem sido feita em torno do “lago de fogo”, mencionado em Apocalipse como sendo onde os ímpios terão a devida paga, a “segunda morte” (cf. Ap.20:14). O lago de fogo não é um lugar onde as almas passam a eternidade queimando, o lago de fogo é a linguagem expressa por João para a morte final dos pecadores, a morte definitiva e irreversível (cf. Ap.20:14).

Como diz Bacchiocchi:

“Para os salvos, a ressurreição marca o galardão de outra vida mais elevada, mas para os perdidos marca a retribuição de uma segunda morte que é final. Como não há mais morte para os remidos (Apocalipse 21:4), assim não há mais vida para os perdidos (Apocalipse 21:8). A ‘segunda morte’, então, é a morte final e irreversível. Interpretar a frase de outro modo, como um tormento eterno e consciente ou separação de Deus, nega o significado bíblico da morte como uma cessação de vida”[1]

O lago de fogo é a segunda morte, é a morte física e espiritual, a morte final e irreversível. O lago de fogo é a morte da própria morte!

“Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte” (cf. Apocalipse 20:14)

Será a morte da morte!

O lago de fogo não é um lugar onde pessoas não-salvas passam a eternidade entre as chamas, mas é a morte da morte, é figurativamente a linguagem do completo fim a tudo: incluindo o Hades (sepultura) e a própria morte. Ignorar isso para seguir a crença popular de que o lago de fogo é um lugar que queima almas eternamente é desprezar o poder da morte sobre a morte. Em outras palavras, se a morte e a sepultura são tragadas pela “segunda morte” (lago de fogo), essa segunda morte tem que ser a morte final e definitiva, e não um prosseguimento eterno de existência. João trabalhava com figuras de linguagem no Apocalipse, e dentro dessa simbologia ele próprio nos dá alguns significados que nos auxiliam na compreensão textual do livro, e dentre eles destaca que o lago de fogo não é um lugar, mas é a segunda morte, é onde a própria morte será lançada.

A morte, em si, não é um lugar, mas uma condição de quem está morto, sem vida. Se o lago de fogo é a segunda morte, ele também não pode ser um lugar, mas deve ser uma condição, assim como a primeira morte. Assim como a primeira morte foi personificada por João no Apocalipse, como o “cavaleiro chamado morte” (cf. Ap.6:8), o que obviamente não significa que a morte seja literalmente um homem montado em um cavalo, da mesma forma a segunda morte foi personificada na imagem do “lago de fogo”, o que também obviamente não implica que o lago de fogo seja literalmente um lugar físico que existirá na terra.

Além disso, o fato de a morte ser lançada no lago de fogo prova que de fato este lago de fogo não é um lugar físico ou real, pois a morte em si mesma não é um lugar, mas apenas uma condição de quem está morto, e não há sentido em uma condição ser lançada em um lugar real. É evidente que, se a primeira morte é uma condição e não um lugar físico real, a segunda morte também é uma condição e não um lugar real, para dar sentido ao texto. Se, portanto, o lago de fogo não é um local físico e real, mas uma alegoria que o próprio João explica o significado e diz se tratar da segunda morte, é claro que os ímpios não passarão a eternidade nele, como pensam os imortalistas.

Ademais, seria um absurdo acreditar que o Hades é o “inferno”, como vertem algumas traduções[2] (já vimos ao longo de todo este livro que se trata apenas de uma figura da sepultura), pois se o Hades fosse o inferno e o lago de fogo também, teríamos um inferno sendo lançado dentro de outro inferno, um lago de fogo literal e físico sendo lançado dentro de outro lago de fogo literal e físico! Isso é um completo absurdo, o texto só faz sentido se de fato o Hades não é um lugar físico, mas uma figura simbólica da sepultura, e junto com a morte (que também não é um local físico) estar sendo lançada no lago de fogo (que também não é um lugar físico, mas a segunda morte).

Desta forma, tudo estaria sendo perfeitamente representado aqui. A “morte da morte” é na verdade é demonstração de que a primeira morte não era irreversível e definitiva, por causa da ressurreição futura para justos e ímpios. A segunda morte, por sua vez, é final e conclusiva, pois não há mais volta nem ressurreição para quem morre outra vez. É um fim completo, absoluto, irrevogável, sem volta, é para sempre. Isso explica perfeitamente a linguagem de “a morte ser lançada no lago de fogo que é a segunda morte”, isto é, da “morte da morte”, pois não há mais vida ou existência para quem é lançado no lago de fogo, mas apenas uma final, definitiva e irreversível morte.

Crer que o lago de fogo é um lugar para onde vão os não-salvos passar a eternidade é negar o fato de o lago de fogo ser a segunda morte (se a primeira morte não é um lugar, por que a segunda morte seria um lugar?), é negar o fato de ser a “morte da morte” (i.e, uma morte final e irreversível, e não um tormento eterno com permanência de vida para sempre) e é inferir também que nunca haverá uma morte final, a “morte da morte”, um fim absoluto de existência para aqueles que sofrem o dano da segunda morte, pois para sempre existiriam ímpios e demônios queimando conscientemente em vida neste lugar.

Isso sem mencionar o absurdo de se crer em um inferno literal sendo lançado dentro de um lago de fogo igualmente real e literal, o que só faz sentido na imaginação fértil de alguns imortalistas, que são obrigados a chegarem a essa conclusão por causa de seus conceitos completamente errôneos sobre o significado do Hades e do lago de fogo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”


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[1] BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
[2] Tais como a Almeida Revista e Atualizada, a Almeida Corrigida, Revisada e Fiel e a Almeida Revisada e Imprensa Bíblica.
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28 de agosto de 2013

O que é o bicho que não morre?


O bicho que não morre – Outra passagem que os imortalistas costumam lançar mão na tentativa de colocarem o horror do tormento eterno na Bíblia é a de Marcos 9:47-48, que diz:“E, se o teu olho te escandalizar, lança-o fora; melhor é para ti entrares no reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno, onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” (cf. Mc.9:47,48). Já conferimos que a linguagem do “fogo que não se apaga” em nada alude à ideia de um tormento eterno, mas favorece incontestavelmente a tese bíblica do aniquilacionismo com efeitos eternos (o que você pode conferir clicando aqui), como ocorreu em absolutamente todas as ocasiões em que semelhante linguagem foi empregada na Bíblia.

Mas e quanto ao “bicho que não morre”? Seria essa uma evidência bíblica da existência de bichos imortais? Duas coisas temos que frisar aqui logo de cara. Em primeiro lugar, o texto não diz que o bicho nunca morrerá, mas que “não morre”, o que não indica necessariamente um processo eterno de existência, mas que não morre por um tanto indeterminado de tempo, ou seja, até que seus corpos sejam completamente consumidos.

E, em segundo lugar, o sentido do texto é obviamente hiperbólico, pois nestes mesmos versos Cristo afirma para arrancar os olhos ou cortar pernas e braços para entrar no Reino dos céus. Será que por isso no Reino haverá caolhos, manetas e pernetas? Será que a vontade de Deus é de amputar membros do corpo físico, que é o templo do Espírito Santo (cf. 1Co.6:19)? Logicamente Jesus estava apenas fazendo uso de hipérbole neste contexto, e não sendo literal. Não existe um verme que seja imortal, da mesma forma que não temos que amputar literalmente nossos membros para entrarmos no Céu.

Em terceiro lugar, é importante mencionar que não há qualquer referência bíblica de que um “verme” ou “bicho” possa ganhar imortalidade. Se os seres humanos não possuem alma imortal, os bichos muito menos. De fato, os próprios imortalistas reconhecem que os bichos não são imortais, pois Salomão nos diz que eles morrem (cf. Ec.3:19) e voltam ao pó (cf. Ec.3:20), e que seu espírito “desce” na morte (cf. Ec.3:21), indicando que não há ressurreição futura para eles. Se o bicho não é imortal, como os imortalistas interpretam essa passagem?

Boa parte deles entendem a expressão “o seu bicho” como se referindo “ao seu corpo”, dizendo que o corpo humano dos ímpios não morreria, e não que existiriam “bichos imortais”. Contudo, tal alegação esbarra no fato de que absolutamente nunca a Bíblia se refere ao nosso corpo como sendo um “bicho” ou “verme”, como traduziram este verso. Em outras palavras, os imortalistas querem colocar na Bíblia uma expressão que ela nunca diz quando se refere ao corpo.

Se o corpo fosse de fato um “bicho” ou um “verme”, seria imprescindível que qualquer um dos inúmeros escritores bíblicos tivesse expressado tal condição em qualquer um dos 66 livros da Sagrada Escritura, mas como nenhum deles em qualquer ocasião se referiu desta forma fica óbvio que essa tentativa não passa de uma visão tendenciosa do texto bíblico, quando os imortalistas tentam fazer eisegese e não exegese no texto, e quando se veem desesperados ao ponto de terem que dizer que o verme não é verme e o bicho não é bicho, mas que é o nosso corpo, mesmo que nunca a Bíblia tenha se referido ao nosso corpo como sendo um verme!

Essa evidente contradição se vê ainda mais forte quando deparamos isso com o relato bíblico de que o nosso corpo não é um “bicho” ou um “verme”, como se fosse uma coisa desprezível qualquer, mas é o templo do Espírito Santo (cf. 1Co.6:19). O próprio Senhor Jesus foi dotado de um corpo quando se fez homem e habitou entre nós (cf. Hb.10:5). Seria absurdo alegar que aquilo que é considerado templo do Espírito Santo e que foi morada do próprio Cristo na terra fosse um “verme” ou um “bicho” qualquer. Essa visão despreza o valor do corpo, que Paulo diz que deve ser apresentado a Deus (cf. Rm.12:1). O que deve ser apresentado a Deus como um “sacrifício vivo, santo e agradável” não é um verme ou um bicho qualquer, mas o templo do Espírito Santo, onde o próprio Deus faz morada.

Outros imortalistas vão ainda mais longe em suas imaginações férteis e afirmam que este “verme” é a própria alma, como se Cristo estivesse igualando esse “bicho” à própria “alma” em si e não soubesse diferenciar “bicho” e “alma” (como se fossem a mesma coisa), como se Deus tivesse criado uma alma imortal para depois chamá-la de “verme”! O que detona de uma vez por todas com essas interpretações malucas de que o “bicho” seja uma referência ao próprio corpo ou à alma é o significado da palavra empregada originalmente por Jesus, que é skolex, que, de acordo com o léxico da Concordância de Strong, significa:

4663 σκωληξ skolex
de derivação incerta; TDNT - 7:452,1054; n m
1) verme, espec. aquele tipo que depreda cadáveres.

O The NAS New Testament Greek Lexicon segue nessa mesma linha e define skolex como sendo “um verme, especificamente aquele tipo que ataca os cadáveres”[1]. Como vemos, os léxicos do grego não dão como significado possível para skolex o próprio corpo ou a alma, o que nos ajuda ainda mais a refutarmos tal interpretação imortalista, que não é apoiada em nenhum lugar das Escrituras e em nenhum léxico do grego – ou seja, é “apoiada” apenas em suas próprias imaginações. O fato é que Cristo não apenas citou um verme, mas um tipo específico de verme, especialmente ligado àqueles que depredam cadáveres, que atacam corpos mortos. E isso nos leva ao quarto lugar: Cristo não falava de almas humanas vivas, mas de meros cadáveres! E isso fica claro pelo fato de Jesus ter usado este texto de Isaías, que originalmente disse:

“Sairão e verão os cadáveres dos que se rebelaram contra mim; o seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará, e causarão repugnância a toda a humanidade” (cf. Isaías 64:24)

Note que Isaías não contemplava almas imortais em meio às chamas, nem espíritos incorpóreos queimando eternamente, mas cadáveres, ou seja, pessoas já mortas, que perderam a vida! A palavra empregada por Isaías foi peger, que significa:

06297 peger
procedente de 6296; DITAT - 1732a; n. m.
1) cadáver, carpo morto, monumento, estela.
1a) cadáver (de homem).
1b) carpo morto (de animais).

Portanto, Isaías em nada falava de um tormento eterno para almas imortais com corpos ressurretos incorruptíveis para serem eternamente refratários ao fogo, mas sim cadáveres, isto é, corpos já mortos! E Jesus seguiu exatamente essa mesma linha, pois citou o texto de Isaías, dizendo que “o seu verme não morrerá”. Esse verme em nada tem a ver com o próprio corpo humano ou com a alma humana, mas diz respeito ao tipo de verme que depreda cadáveres, porque o texto bíblico fala de cadáveres e não de almas!

Ora, o geena, como já vimos, era o nome dado ao Vale de Hinon, que se localizava ao sul de Jerusalém. Era um verdadeiro “lixão público”, local onde se deixavam os resíduos, bem como toda a sorte de cadáveres de animais e malfeitores, e imundícies de todas as espécies, recolhidas da cidade. Neste local era aceso um “fogo que nunca se apagava”, pelo fato de que estava constantemente aceso, tendo em vista que suportava todos os tipos de lixo e carniça que eram ali despejados. Os dejetos que não eram rapidamente consumidos pela ação do fogo eram consumidos pela devastação dos vermes que ali se achavam, que devoravam as entranhas dos cadáveres dos impenitentes que lá eram lançados, em um espetáculo realmente aterrador.

E é este cenário que Isaías contemplava como o juízo final, e de que Jesus fez menção. Não era um cenário onde almas imortais com corpos incorruptos ressurretos eram atormentadas eternamente em meio às chamas, mas onde cadáveres (i.e, corpos de pessoas já mortas, aniquiladas) são lançados para serem devorados pelos skolex (tipo específico de verme que ataca cadáveres). Essa visão, portanto, é totalmente condizente com o aniquilacionismo, pois somente deste jeito que Jesus e Isaías estariam contemplando cadáveres de pessoas já mortas, aniquiladas, e não almas imortais com corpos vivos e incorruptíveis.

Um judeu da época de Cristo podia entender isso perfeitamente, pois conhecia o texto de Isaías de onde Jesus fazia menção e sabia bem aquilo que era o geena, pois conviviam com o Vale de Hinon ao sul de Jerusalém, mas um imortalista de séculos posteriores, que nada sabe de nada disso, consegue facilmente contradizer o ensino claro de Cristo a este respeito, através de uma exegese pobre e superficial que distorce completamente aquilo que foi dito, conseguindo enganar os mais incautos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”


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27 de agosto de 2013

Moisés, Jó e a imortalidade da alma


Segundo reza a tradição, o autor de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio teria sido Moisés, o que também é confirmado biblicamente (cf. Lc.24:44; 2Cr.25:4). Estes livros são muito importantes, pois relatam fatos como a criação do homem, bem como a sua natureza humana. Em termos simples, se existisse uma alma imortal, aí estaria uma ótima oportunidade de mencionar tal fato tão importante no tocante a natureza do homem. Mas nada de imortalidade é mencionado nos cinco livros de Moisés. No relato acerca da criação do ser humano bem como a sua natureza, ela é apresentada de maneira holista, e não dualista (cf. Gênesis 2:7 – ver Parte 3).

Vimos neste estudo que o mesmo processo que sucede aos homens sucede também aos animais. Afinal, “o que sucede aos filhos dos homens é mesmo que sucede aos animais, lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo fôlego [espírito - ruach], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó (cf. Ec.3:19,20).

É comum a Bíblia igualar absolutamente os homens com os animais, pelo simples fato de que não existe vantagem nenhuma de um em relação a outro. Ambos são feitos do pó e o único lugar para o qual voltam é para o pó. Disso resulta toda uma infinidade de passagens bíblicas em que o homem é igualado aos animais pelo fato de não possuir nenhuma vantagem sobre eles: “O homem, mesmo que muito importante, não vive para sempre, é como os animais, que perecem(cf. Sl.49:12).

Tais comparações não fariam sentido em caso que nós (ao contrário deles) fôssemos dotados de uma alma imortal que nos diferenciasse deles no quesito pós-morte. Isso seria uma clara vantagem nossa. Deus soprou o fôlego que garante vida aos animais do mesmo modo que soprou aos seres humanos (cf. Ec.3:19,20), ambos possuem “espírito” [ruach] – cf. Gênesis 7:15; Eclesiastes 3:19,20; Salmo 104:29 -, que é o que garante a vida; ambos expiram o ruach na morte (cf. Sl.104:29; Ec.12:7), e a ambos é referido o termo alma-nephesh (cf. Gn.2:7; Gn.1:20). Não foi dado aos seres humanos nenhuma vantagem sobre os animais quando o assunto é o destino pós-morte, e por isso que Salomão os iguala absolutamente quando trata disso (cf. Ec.3:19,20).

O mesmo que sucedeu aos homens sucedeu aos animais, os humanos não têm a vantagem de possuírem uma “alma imortal”! Deus não colocou uma alma no homem. Moisés é bem claro no relato da criação em negar qualquer vestígio de um elemento transcendental que garanta imortalidade incondicional, intrínseca, com consciência e personalidade na morte. No aspecto prático, é óbvio que nos cinco livros de Moisés não existe qualquer menção de vida dentre os mortos em um “estado intermediário”. Pelo contrário, quando Caim mata Abel, o Senhor Deus diz: “O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão está clamando” (cf. Gn.4:10).

O Abel como pessoa não poderia clamar nada depois da morte porque ele estava passando por aquilo que a Bíblia caracteriza por “inconsciência” (cf. Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17) e por “sono” (cf. Sl.13:3; Sl.25:13; Jó 14:11-12; 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51; 1Ts.4:13; 1Ts.4:14; 1Ts.4:15). Por isso, o que clamava não era o próprio Abel, mas sim o sangue dele. Evidentemente é uma personificação e não uma realidade, pois o sangue não tem vida e personalidade em si mesmo. É comum a Bíblia personificar personagens inanimados (ex: Juízes 9:8-15; 2 Reis 14:9; Habacuque 2:11; Lucas 10:40; Mateus 3:9; ver Jó 12:7 e 8; Gênesis 4:10; Apocalipse 10:3).

Se Abel estivesse vivo em um “estado intermediário”, Deus teria dito que ele próprio [Abel] que estava clamando. Mas como ele não está, então Deus teve que personificar algo sem vida [o sangue] para exercer a linguagem do “clamor”. Ainda mais importante do que isso é o que relata outro escritor bíblico tão antigo quanto Moisés: Jó. Este homem teve a sua história narrada aproximadamente no ano 2000 a.C. Se no caso de Moisés a natureza dualista do homem é totalmente omitida e rejeitada, no caso de Jó os seus diálogos com seus companheiros (Bildade, Zofar, Eliú e Elifaz) é extremamente produtivo em termos práticos.

Nele, Jó comenta: Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior” (cf. Jó 19:25-27). Até mesmo Jó, há dois mil anos a.C, já sabia que só iria ver a Deus quando por fim o Redentor (figura de Cristo) se levantasse sobre a terra, e não antes disso!

Jó também é o mesmo que diz: “Mas, morto o homem, e, consumido; sim rendendo o homem o espírito, então onde está? Como as águas se evaporam de um lago, e o rio se esgota e seca; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf. Jó 14:10-12). Jó sequer imaginava que ao morrer estaria na presença imediata de Deus, por isso revela que teria que esperar até que “não houvesse mais céus”, pois só neste momento veria a Deus (cf. Jó 19:25-27), sendo despertado de seu estado caracterizado de “sono” (cf. Jó 14:12).

Para Jó, a morte não seria um passaporte para estar imediatamente com Deus, porque ele fala claramente de esperar até não mais “existirem os céus” (cf. Jó 14:11) e até ser “substituído” (cf. Jó 14:14). A esperança de Jó, assim como a de todos os cristãos, é na ressurreição do último dia, e não na partida da alma na morte! E, como se isso não fosse suficientemente claro, Jó continua a dizer: “Morrendo o homem tornará a viver? Todos os dias da minha vida esperaria, até que viesse a minha mudança. Chamar-me-ias, e eu te responderia...” (cf. Jó 14:14, 15). Jó sabia muito bem que, “morrendo... morreria” (cf. Gn.2:7). Mas ele tinha a esperança de ver a Deus no tempo do fim, e somente no tempo do fim, quando o seu Redentor se levantaria sobre a terra.

Este é o momento da ressurreição do último dia (cf. Jo.6:39,40), que o Novo Testamento relaciona à segunda vinda de Cristo (ver 1Co.15:22,23). É só neste momento que veremos a Deus. Jó definitivamente não cria numa natureza dualista do ser humano. Isso explica o porquê de ele dizer que “o único lar pelo qual espero é a sepultura” (cf. Jó 17:13), porque ele não cria que o ser humano fosse um ser dividido em corpo e alma, cada qual com destinos diferentes após a morte. Se assim fosse, a sepultura não seria o seu único destino, mas o destino apenas do corpo, uma vez sendo que o ser racional dele (que seria a alma) já estaria assegurada entre os salvos em alguma espécie de Paraíso, o que é claramente rejeitado por ele que cria que o seu único destino era o túmulo.

Jó também sabia que, caso morresse (cf. Jó 3:11), não iria imediatamente para junto de Deus, mas estaria permanecendo em “repouso” (cf. Jó 3:13,17; 14:10-12), no mesmo lugar onde encontra-se os justos com os ímpios (cf. Jó 3:17-19), sendo que já não se ouvem mais gritos (cf. Jó 3:18) e todos estão em sossego (cf. Jó 3:18), algo impossível para alguém que está em um lugar ouvindo os gritos de espíritos que estão em meio às chamas:

“Ali os ímpios já não se agitam, e ali os cansados permanecem em repouso; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos. Os simples e os poderosos ali estão, e o escravo está livre de seu senhor” (cf. Jó 3:17-19)

Jó não tinha a menor visão de vida após a morte onde justos e ímpios teriam destinos distintos no pós-vida, mas sim de um lugar onde estão “os simples e os poderosos” (v.19), os cansados, os prisioneiros e os homens livres (vs.18-19). A linguagem sobre permanecer em repouso (v.17) mostra claramente que ele não tinha a menor noção dos ímpios sofrendo horrivelmente gritando entre as chamas de um fogo eterno aterrorizante, pois cria que “os ímpios já não se agitam” (v.17), denotando um estado de inatividade. Já “não se ouvem mais gritos” (v.18), o que seria difícil de se esperar caso a descrição fosse das chamas de um fogo infernal.

Não há qualquer citação sobre a presença de Deus naquele lugar, nem de anjos, nem de demônios, nem de suplícios, nem de regozijos. Tão somente o simplismo do sono da morte. Tudo isso nos mostra que o local de repouso, inatividade, sem gritos e sem distinção entre justos e ímpios que Jó tinha em mente após a morte não era outro senão a sepultura. Não havia qualquer visão sensacionalista sobre a vida pós-morte e muito menos uma imaginação aflorada como um “inferno de Dante”. Em meio a tantas evidências claras de que Jó não acreditava na existência de uma suposta “alma imortal” que lhe garantisse sobrevivência após a morte, os dualistas conseguem encontram uma “brecha” em Jó 26:5, que supostamente “provaria” a sobrevivência da alma em um estado intermediário.

Algumas traduções em língua portuguesa vertem da seguinte maneira o verso: “A alma dos mortos treme debaixo das águas com seus habitantes”. Essa tradução, contudo, não é fiel aos manuscritos originais. A palavra usada nos manuscritos originais do hebraico é Há Rephaim, que significa literalmente “os gigantes”, e não “almas”! Tal tradução de “a alma dos mortos” não corresponde ao que o texto original do hebraico diz, pois a referência é aos Rephains e não a “almas”-nephesh. Várias das melhores traduções do mundo vertem o texto da maneira como ele verdadeiramente o é, como a Young’s Literal Translation (que mantém uma tradução fiel aos manuscritos originais), e traduz: Os refains são formados debaixo das águas com seus habitantes”.

Os Rephains foram gigantes que habitaram na Palestina e outros lugares, mas foram destruídos por outros povos e por fim acabaram por desaparecer. Com o tempo, a expressão passou a significar qualquer ser gigantesco, como as baleias, por exemplo. Jó 26:5 deveria ser melhor traduzido por “os gigantes tremem debaixo das águas com seus habitantes” – uma clara alusão aos grandes animais marinhos, como as baleias. Tal tradução de “as almas dos mortos” nem corresponde aos textos originais e nem faz qualquer tipo de lógica, pois as almas dos mortos não ficam “debaixo da água tremendo”...

Vale também ressaltar que para Jó os ímpios não estavam sendo atormentados no dado momento. Se fosse este o caso, então seria imprescindível que isso tivesse sido mencionado em algum lugar no diálogo ou filosofias com os seus amigos, uma vez que eles abordavam bastante o aspecto da outra vida e a vantagem entre justos e ímpios. Contudo, o que lemos é que os maus não estão no inferno, mas estão “reservados”, no túmulo, para o dia do Juízo:

“Pois dizeis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que morava o ímpio? Porventura não perguntastes aos viandantes? e não aceitais o seu testemunho, de que o mau é preservado no dia da destruição, e poupado no dia do furor? Quem acusará diante dele o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que fez? Ele é levado para a sepultura, e vigiam-lhe o túmulo (cf. Jó 21:28-32).

Também em Jeremias 12:3, lemos que os ímpios estão reservados... para o dia da matança” (cf. Jr.12:3). A punição não é algo já vigente, mas um acontecimento futuro. Em momento nenhum é dito no livro de Jó que a morte seria um prêmio ou um passaporte para um Paraíso. Pelo contrário, a morte é caracterizada como um inimigo. A situação de Jó era tão decadente que até a morte seria melhor alternativa para ele. Isso porque a morte dos justos era absolutamente igualada a dos ímpios (cf. Jó 21:23-26). Não existia “vantagem” dos bons em detrimento dos maus no sentido de que a alma de todos desceria para a cova com a morte (cf. Jó 33:18,22,28,30).

Quando é retirado o espírito do homem, para onde este vai? Para junto de Deus? Para Jó, não exatamente. Retirado o espírito, o homem não vai para junto de Deus, mas volta para o pó da terra (cf. Jó 34:14,15). Não só ele, mas o salmista também declara a mesma realidade: “Quando escondes o rosto, entram em pânico; quando lhes retira o fôlego, morrem e voltam para o pó” (cf. Sl.104:29). E em outra parte: “Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4). Os hebreus, ao contrário dos gregos, acreditavam em uma natureza humana holista, e não dualista. É mais do que evidente que Jó não acreditava em imortalidade da alma nenhuma.

Até por isso, ele afirma: Porém os olhos dos ímpios desfalecerão, e perecerá o seu refúgio; e a sua esperança será o expirar da alma (Jó 11:20). Ora, já vimos que o extirpar da alma significa a própria morte desta (cf. Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.22:25,27), com destino à cova (cf. Jó 33:18,22,28,30; Is.38:17; Sl.94:17), sendo que a vida humana sobe para Deus (cf. Ec.12:7).

Ora, a coisa mais ridícula que algum defensor da imortalidade da alma ousaria dizer era que a esperança dos ímpios seria o extirpar da alma, pois isso remeteria a um imediato lançamento da alma em um lago de fogo eterno completamente atormentador. De jeito nenhum que essa seria a “esperança” deles! O “extirpar da alma” seria o seu maior medo, e não sua esperança. É óbvio que para Jó não existia qualquer existência de vida antes da ressurreição dos mortos, concluindo-se então que logicamente a situação destes ímpios seria aqui na terra ruim ao ponto da morte ser um “alívio”, pois eles deixariam absolutamente de existir, ainda que durante algum tempo, até a ressurreição.

É evidente que na própria visão veterotestamentária haverá um dia que Deus determinou para julgar todo o mundo (cf. Ec.11:9), mas este castigo seria proporcional ao que lhes é merecido e não seria antes da ressurreição, pois, se tal se sucedesse, então o extirpar da alma seria a consequência mais agonizante e aterrorizadora que algum ímpio já poderia passar! Isso estaria longe, muito longe de ser uma “esperança”! É muito claro que para Jó não existia tormento para os ímpios logo após a morte, e nem vida antes da ressurreição.

Para Jó, o homem é mortal e não imortal (cf. Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2) – “Como pode o mortal ser justo diante de Deus?” (9:2) -, declaração, aliás, que permeia a Bíblia toda com respeito à natureza humana (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12; Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4; Rm.1:23). Existem biblicamente (AT e NT) dezenas de dezenas de menções com relação à natureza humana definindo-a como “mortal”, como o próprio Deus diz em Isaías: “Eu, eu sou aquele que vos consola; quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal, ou o filho do homem, que não passa de erva?” (cf. Is.51:12).

O homem é um mero ser mortal, não passa de uma simples erva, não possui em si mesmo um segmento transcendental que lhe dê imortalidade. Por isso mesmo, ele não deve ser temido (v.12), pois “não passa de erva” (v.12). Tal analogia feita por Deus seria nula e sem sentido em caso que, ao contrário da simples erva, o “verdadeiro eu” do ser humano fosse imortal, e não mortal como diz o próprio verso. Aqui a comparação do homem com a erva é claramente relacionada ao fato de ele ser mortal. Se o homem tivesse uma alma imortal, então a erva também deveria ter, pois, doutra forma, tal analogia seria oca e sem sentido. Os dois são mortais; nenhum dos dois tem um segmento imortal – por isso, neste sentido o homem não tem nenhuma vantagem sobre a “erva” (cf. Is.51:12), como o próprio Deus afirmou.

Ademais, se o “verdadeiro eu” do ser humano fosse imortal, seria bem presumível que também houvessem dezenas de menções a essa parte imortal do homem; contudo, em absolutamente todas as ocasiões em que a natureza humana é colocada em jogo, ela sempre aparece como “mortal”, e nunca como “imortal” (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12; Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4; Rm.1:23; Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2). Tal quadro que nos é apresentado mostra-nos claramente que o ser humano não é um ser dualista (parte mortal e parte imortal), mas plenamente mortal.

Jó também sabia que, morrendo, já não existiria mais: “Por que não perdoas as minhas ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás, mas eu já não existirei(cf. Jó.7:21). Se Jó morresse e sua alma imortal fosse levada para junto de Deus, então este “acharia” Jó! De maneira nenhuma que Deus não encontraria Jó após a sua morte como é claramente relatado em 7:21, caso este estivesse com o próprio Deus logo após a morte.

Mas a razão pela qual o Deus onipresente não encontraria Jó é que este, morrendo, já não existiria. A mesma verdade é relatada no Salmo 39:13. Não é possível “encontrar” algo que não mais existe. Nem Moisés com a criação do ser humano, nem Jó na conversa com seus amigos, acreditavam em qualquer imortalidade da alma. Um nega uma natureza dualista do homem, o outro nega um estado intermediário das almas. O fato em comum é que ambos levantam a bandeira contra a imortalidade da alma.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”


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A Dormição de Maria e a imortalidade da alma


A “Dormição de Maria” é a crença de que Maria “dormiu” (morreu) e ressuscitou posteriormente, assim como Jesus Cristo, sem ter sofrido a corrupção no túmulo. Ela é crida pela Igreja Católica Ortodoxa, que comemora a morte de Maria e a sua ressurreição de corpo e alma aos céus como a “Festa da Dormição da Mãe de Deus” no dia 15 de Agosto (28 de Agosto no calendário juliano). Essa doutrina que sugeriu a assunção de Maria, embora não haja nenhuma pista de que tenha sido proveniente dos apóstolos, é de origem antiga, pois no quarto século d.C já haviam Pais da Igreja defendendo ou supondo essa ideia. Mas a pergunta principal a se destacar aqui sobre a dormição de Maria é: o que aconteceu com Maria entre a sua morte e assunção?

Como vemos, a Igreja Católica Ortodoxa crê que Maria ressuscitou de corpo e alma, e não se ressuscita algo que não esteja morto. A crença presume que Maria morreu completamente – corpo e alma – e posteriormente passou pela ressurreição, não meramente corporal, mas uma ressurreição de corpo e alma. A Igreja Romana igualmente crê que “Maria foi assunta de corpo e alma à glória celeste”[1]. Se Maria foi assunta de corpo e alma à glória celeste, isso significa que a alma de Maria não estava já no Céu quando ela ressuscitou.

A doutrina, portanto, presume que Maria morreu de corpo e alma e ressuscitou de corpo e alma. A Igreja Ortodoxa declara isso categoricamente, enquanto que a Igreja Romana, embora oficialmente não tenha tido uma declaração em ex cathedra que confirme se Maria morreu ou não, conta com diversas declarações de papas e doutores da Igreja que também criam que Maria passou pela morte. O papa João Paulo II, por exemplo, em sua Audiência Geral de 25 de Junho de 1997, citou São Tomás de Aquino e disse:

“No que diz respeito às causas da morte de Maria, não parecem fundadas as opiniões que querem excluir as causas naturais. Mais importante é investigar a atitude espiritual da Virgem no momento de deixar este mundo. A este propósito, São Francisco de Sales considera que a morte de Maria se produziu como efeito de um ímpeto de amor. Fala de uma morte ‘no amor, por causa do amor e por amor’ e por isso chega a afirmar que a Mãe de Deus morreu de amor por seu filho Jesus (Tratado do Amor de Deus, Liv. 7, cc. XIII-XIV). Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, do ponto de vista físico, tenha produzido a morte de Maria, pode-se dizer que o trânsito desta vida para a outra foi para Maria um amadurecimento da graça na glória, de modo que nunca melhor que nesse caso a morte pode conceber-se como uma ‘dormição’"[2]

Vemos claramente, portanto, o papa João Paulo II em uma audiência geral afirmando que Maria morreu, e citando São Francisco de Sales que cria da mesma forma. O padre Miguel Ángel Fuentes segue essa mesma linha e cita também outro teólogo católico para confirmar a sua posição de que Maria passou realmente pela morte:

Segundo G. Alastruey ('Tratado da Virgem Santíssima', BAC, Madrid 1945, pp. 405 e seguintes), somente para citar um dos mais influentes mariólogos, a verdadeira doutrina (e que deve se ter como teologicamente correta) é que a Virgem Maria verdadeiramente morreu[3]

O mesmo cita também Agostinho, Jerônimo, João Damasceno, André de Creta, João de Tessalônica e Nicolás Cabasilas em apoio da tese de que Maria realmente morreu, de acordo com a tradição tanto grega como latina. Portanto, vemos que a crença crida pela Igreja Católica Romana também é a mesma crença da Igreja Católica Ortodoxa, de que:

 Maria morreu de corpo e alma.

 Maria ressuscitou de corpo e alma.

 Maria foi assunta aos céus de corpo e alma.

Se a alma de Maria já tivesse subido aos céus no momento da morte, então Maria não teria sido assunta “de corpo e alma” como pregam a Igreja Romana e Ortodoxa, mas teria sido assunta somente de corpo, porque a alma supostamente já estaria no Céu. Isso mostra clarissimamente que até a época em que se deu essa tradição não se cria na imortalidade da alma, doutrina esta que ensina que a alma é imortal e parte desta vida imediatamente no momento da morte, e que a ressurreição é somente do corpo. Se os cristãos dos primeiros séculos cressem na imortalidade da alma, teriam ensinado que apenas o corpo de Maria que morreu, que a alma dela subiu ao Céu no momento da morte corporal, e que apenas o corpo ressuscitou e foi assunto ao Paraíso, como creem os imortalistas atuais[4].

A ressurreição de corpo e alma de Maria sugere fortemente que até aquela época a Igreja ainda não havia ensinado errado a doutrina da imortalidade da alma. Para que os mais mariólogos pudessem colocar Maria no Céu, não apelaram para uma “imortalidade da alma”, pois essa doutrina não existia na Igreja, por isso tiveram que sugerir a crença na assunção de Maria, onde tanto o corpo quanto a alma que morreram ressuscitariam e adentrariam os céus. Tempos mais tarde, quando a doutrina da imortalidade da alma ganhou força na Igreja da época, ficou muito mais fácil para os católicos colocarem todos os santos no Céu: bastou ensinar que a alma era imortal.

Desta forma conseguem sustentar até hoje suas crenças na canonização dos santos, intercessão dos santos, oração pelos mortos, purgatório e consulta aos mortos em cima deste sustentáculo da imortalidade da alma, que é a base e fundamento de todas as demais heresias. Os primeiros cristãos não tinham tal crença, tanto é que a palavra “cemitério” veio dos cristãos primitivos. Os romanos chamavam de “necropolis”, que era a cidade dos mortos, mas os cristãos, por crerem diferente dos romanos pagãos que ensinavam a vida no pós-morte, decidiram dar um nome diferente ao local onde colocamos os mortos, chamando-o de “cemitério”, que vem do grego kimitírion, significando “dormitório”.

Por que os cristãos primitivos deram o nome de “dormitório” para o lugar dos mortos, ao invés de manterem o nome de necropolis? Porque, diferentemente dos pagãos que criam que a alma era imortal, eles acreditavam que os mortos estavam realmente “dormindo”[5] até a volta de Jesus e a ressurreição para a vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”


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[1] §966 do Catecismo Católico.
[2] Audiência geral de 25 de Junho de 1997 de João Paulo II. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1997/documents/hf_jp-ii_aud_25061997_po.html>. Acesso em: 21/08/2013.
[3] FUENTES, Miguel Álgel. Él Teólogo Responde. Disponível em: <http://www.exsurgedomini.xpg.com.br/>. Acesso em: 21/08/2013.
[4] Vale destacar que eu não estou aqui defendendo a veracidade da crença na assunção de Maria, mas demonstrando historicamente que, até o período em que tal crença foi proposta, não se criam na imortalidade da alma – e isso independe totalmente se a crença de que Maria foi assunta aos céus é verdadeira ou falsa.
[5] No capítulo 6 deste livro analisaremos o que exatamente os cristãos primitivos queriam dizer quando falavam que os mortos “dormem”.
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