Desmistificando a lenda de uma alma imortal

14 de dezembro de 2012

Lutero e a imortalidade da alma



“Assim como alguém que dorme e chega a manhã inesperadamente, quando acorda, sem saber o que aconteceu: assim nós nos ergueremos no último dia sem saber como chegamos a morte e como passamos por ela. Nós dormiremos até que Ele venha e bata na pequena sepultura e diga: Dr. Martinho, levanta-te! Então eu me erguerei num momento e serei feliz com Ele para sempre” (Martinho Lutero)

Essa é uma resposta à carta de um leitor (cujo nome será mantido em anonimato) que me indicou a leitura de um livro de João Calvino sobre a imortalidade da alma – livro este que traz argumentos muito bons, como eu mesmo admiti – e nela eu discorro sobre as consequencias da crença de Calvino em uma alma imortal, sobre aquilo que Lutero pregava no início da Reforma e sobre a posição dos primeiros Pais da Igreja sobre o tema.

*Nota: É importante, antes da leitura desta carta-resposta, estabelecer dois pontos importantes. O primeiro é que as citações patrísticas e de reformadores que aqui estarão presentes não são, pelo menos em minha opinião, uma prova conclusiva para nenhuma das duas partes, pois o que realmente vale são as Escrituras Sagradas. De outra forma, o princípio de Sola Scriptura vai por água abaixo. Por exemplo, se um reformador disse que a alma é imortal mas as Escrituras dizem o contrário, eu fico com as Escrituras (e vice-versa). Então, o fato de eu citar Pais da Igreja e Reformadores não é porque a opinião deles vale mais que a Escritura, mas sim porque, na visão de muitos, se eu não mostrar um reformador ou um pai da Igreja que pregue a doutrina x, então essa doutrina perde credibilidade, ainda que a Escritura aprove tal ensino. Então, eles argumentam na tentativa de desacreditarem nos ensinos que não constam nos Pais apostólicos ou nos Pais reformadores, como se eu ensinasse algo diferente deles. Portanto, este artigo não é outra coisa senão revelar que a própria pretensão deles (em me colocar contra os reformadores e contra os pais apostólicos) fracassa, quando vemos que os primeiros pais da Igreja (desde Inácio até Justino) criam que a alma é naturalmente mortal, e que o primeiro reformador e mais importante (Martinho Lutero) também pregava isso com grande veemência no início. O segundo ponto importante é que este artigo é apenas uma carta-resposta, que por implicação é algo mais resumido. Existem inúmeras citações patrísticas de outros inúmeros autores e outras várias declarações de Lutero, que não foram abordadas aqui para não deixar a resposta demasiadamente extensa, tal como faço em livros ou em artigos maiores. Portanto, para quem quiser um aprofundamento maior sobre o tema ou mais passagens de apoio, basta enviar uma carta que eu explicarei com mais exatidão e amplitude sobre o tema, ou então esperar até que eu crie algum artigo maior ou até terminar a revisão em meu livro sobre o tema. Tendo isso em vista, vamos ao que interessa:


A Resposta:

Olá, A.
 
Sobre Calvino crer na imortalidade da alma, isso eu já sabia. Mas não creio que este seja um argumento definitivo, já que Calvino também cria na predestinação determinista, que uma vez salvo tá pra sempre salvo, e, por mais bizarro que possa parecer, Calvino foi um dos precursores da Teologia da Prosperidade, pois ele cria que as riquezas são um sinal da bênção de Deus, e estimulava todo mundo a ser rico, assim como ele mesmo era (a pregação dele cairia como uma luva nas igrejas atuais que pregam a teologia da prosperidade!).
 
Portanto, apesar de eu respeitar Calvino por ser um dos principais reformadores, eu não posso concordar com ele em tudo. Eu sou mais Arminianista do que Calvinista, eu não creio na Teologia da Prosperidade, não creio na Imortalidade da Alma, não creio na Predestinação Determinista e nem em um monte de coisas que Calvino cria e muitas delas eu tenho certeza que você mesmo também não crê! 

O que me surpreende é a forma dele de argumentar, me parece muito com Jerônimo defendendo a virgindiade perpétua de Maria. Embora eu não concorde com absolutamente nada do que ele disse, eu admiro a forma destes dois caras em argmentarem de maneira muito convincente. Se você puder ler o tratado de Jerônimo sobre a virgindade perpétua de Maria, você verá que, embora ele pregue a favor deste dogma e isto seja um erro grave da parte dele, ele pregava e argumentava com muita eloquencia, que poderia convencer qualquer um daquele engano. Exatamente a mesma coisa que fez Calvino com a imortalidade da alma.
 
Ele argumentou muitíssimo bem - assim como Jerônimo - porém tudo aquilo já foi refutado por mim, e tenho certeza que também por muitos outros cristãos. Não sei se os argumentos dele estão "ultrapassados" (talvez fossem novidade na época), mas sei que ele trouxe muito mais argumentos do que a grande maioria dos teologos da imortalidade da alma fazem hoje em dia.  

Porém, embora Calvino defenda o seu ponto de vista com muito mais eloquencia e eficiência do que fazem os teologos da imortalidade nos dias de hoje, tanto um quanto o outro são plenamente refutáveis, em minha opinião. Não sei se você já deu uma lida no meu livro sobre "A Lenda da Imortalidade da Alma" (eu ainda irei fazer uma revisão completa no livro e acrescentar algumas coisas relevantes), mas se você ler lá verá que as argumentações deles já foram refutadas por mim e por tantos outros.
 
Cabe ao leitor julgar imparcialmente acerca de qual argumentação está mais convincente, o que, com todo respeito a você, creio que você não possa fazer, já que já está decidido a crer na imortalidade porque a sua denominação ensina deste jeito. Portanto, não está em condições de fazer um julgamento imparcial. Com isso não estou dizendo que você não é honesto (pois sei que é), mas sim que, por já crer em uma doutrina por antecipação (ou seja, já estar inclinado a crer em algo por ouvir sobre isso desde a infância) será muito difícil fazer um julgamento imparcial.  

Só pode fazer um julgamento imparcial quem tem a mente aberta a todas as possibilidades, e não quem já defende um ponto de vista desde a infância, com unhas e dentes. Neste quesito eu mesmo admito que também não posso fazer um julgamento imparcial sobre a grande maioria das coisas que eu mesmo escrevo sobre o Catolicismo, já que sempre defendi tais pontos de vista e defendo tais coisas desde a minha infância.
 
Os únicos que podem julgar meus argumentos seriam aqueles que não são nem católicos nem protestantes - eu mesmo não teria propriedade para julgar imparcialmente. Mas sobre o tema da imortalidade da alma, eu creio que tenho condições de analisar imparcialmente, até porque eu mesmo sempre fui imortalista, sempre aprendi e ouvi isso em todas as pregações a minha vida inteira, todos os pastores que eu escutei pregavam isso, todos os apologetas cristãos da internet que eu lia pregavam isso, aí veio a Bíblia e mudou tudo! Se eu não fosse imparcial, não teria contrariado tudo e todos e mudado de opinião, somente por causa da Bíblia.  

Seria mais fácil e cômodo para mim ficar sentado aqui e apenas repetindo aquilo que todo mundo ensina, ao invés de dar a minha cara a bater por pregar aquilo que a Bíblia ensina. Por tudo isso, creio que a minha análise bíblica - que era imortalista - não pode ter sido outra coisa senão imparcial para julgar os argumentos de ambos os lados e decidir pela verdade bíblica, e para depois ler a Bíblia e descobrir milhares de passagens e centenas de argumentos - literalmente - que destroem com a tese grega-platônica da imortalidade da alma.
 
E eu continuo aberto a todas as possibilidades, de modo que, se alguém me provar pela Bíblia que eu estou errado, contradizer todas as mais de mil passagens bíblicas utilizadas por mim, destruir meus 206 argumentos (teses) contra esta doutrina e refutar cada um dos mais de 850 mil caracteres expressos no meu livro, eu me renderei e admitirei que estou equivocado. Mas não posso fazer isso enquanto vejo o quanto distantes estão os argumentos da imortalidade da alma de alcançarem a verdade.
 
Cada vez que eu leio tais argumentos eu me torno ainda mais mortalista, pois nota-se claramente o abismo entre tais argumentações e o verdadeiro conhecimento. Nota-se claramente a facilidade de refutação a tais argumentos, as alegações ultrapassadas ou infundamentadas, e o quanto que não refuta convincentemente as objeções do outro lado. Até mesmo os mais convencentes (como Calvino) deixam muito em desejar, em inúmero aspectos.  

Mas se o que você quer mesmo é ouvir dos próprios reformadores a crença na mortalidade da alma (embora pra mim isso seja totalmente desnecessário, pois o que importa é a Bíblia), então veja como o próprio Lutero cria inicialmente na mortalidade da alma, antes de ser influenciado pelas teses de imortalidade que eram maioria esmagadora na época: 

“Contudo, eu permito ao Papa estabelecer artigos de fé para si mesmo e para seus próprios fiéis – tais como: que o pão e o vinho são transubstanciados no sacramento; que a essência de Deus não gera nem é gerada; que a alma é a forma substancial do corpo humano; que ele [o papa] é o imperador do mundo e rei dos céus, e deus terreno; quea alma é imortal; e todas estas monstruosidades sem fim no monte de estrume dos decretos romanos – para que tal qual sua fé é, tal seja seu evangelho, e tal a sua igreja, e que os lábios tenham alface apropriada e a tampa possa ser digna da panela" (Martinho Lutero, Assertio Omnium Articulorum M. Lutheri per Bullam Leonis X. Novissimam Damnatorum

Note que, no início, o próprio Martinho Lutero havia descoberto nas Escrituras que a imortalidade da alma não passava de mais uma "monstruosidade sem fim no monte de estrume dos decretos romanos" (isto é, uma invenção do papa), colocando-a junto com as outras invenções papais, tais como a transubstanciação, a primazia papal e outras teses absurdas. Mais tarde, Lutero deixou-se ser influenciado pelos outros reformadores de seus dias (como Calvino), vendo que eles pregavam ainda a imortalidade. Como ficava difícil combater todos sozinho, ele preferiu continuar crendo igual todo mundo, embora em princípio admitia que essa tese era totalmente falsa. 

Em outra ocasião, Lutero chamou a imortalidade da alma de "sonho humano" e, acredite se quiser, de "doutrina de demônios"! Vejamos: 

"Daí os especialistas em Roma recentemente pronunciaram um decreto sagrado [no Quinto Concílio Laterano, 1512-1517] que estabelece que a alma do homem é imortal, agindo como se nós não disséssemos todos em nosso comum Credo, “eu acredito na vida eterna”. E, com a assistência do gênio Aristóteles, eles decretam além disto que a alma é “essencialmente a forma do corpo humano”, e muitos outros esplêndidos artigos de natureza parecida. Estes decretos são, de fato, mais apropriados para a igreja papal, pois eles possibilitam a eles manter sonhos humanos e as doutrinas de demônios enquanto eles pisam e destroem a fé e ensino de Cristo" (Lutero, LW 32:77) 

Note que Lutero, só nessas duas passagens mencionadas acima, declara sobre a imortalidade da alma que ela é: 

1. Uma doutrina inventada pelos decretos papais. 

2. Uma monstruosidade sem fim no monte de estrume dos decretos romanos. 

3. Algo que ajuda a manter sonhos (ilusões) humanos. 

4. Uma doutrina de demônios. 

5. Algo que ajuda a pisar e destruir a fé e o ensino de Cristo. 

Se você prestar bem atenção ou ler o meu livro, verá que Lutero era muito mais enfático na sua posição do que eu mesmo! Lutero condenava a imortalidade da alma muito mais do que eu condeno, indiscutivelmente. E ele até dava argumentos para isso: 

"A respeito de suas “almas”, eu não tenho suficiente [conhecimento do problema] para te responder. Eu estou inclinado a concordar com sua opinião que as almas simplesmente dormem e que elas não sabem onde estão até o dia do Julgamento. Sou levado a esta opinião pela palavra das Escrituras. “Eles dormem com seus pais”. Os mortos que foram levantados por Cristo e pelos apóstolos testificam este fato, já que é como se eles estivessem acabado de ser acordados do sono e não sabem onde eles estiveram. A isto pode ser adicionado as experiências extáticas de muitos santos. Eu não tenho nada com o qual eu poderia derrubar esta opinião... Quem sabe como Deus lida com as almas que partem? Não poderia [Deus] da mesma forma simplesmente fazê-las dormir e acordar (ou enquanto ele deseja [que elas durmam]), assim como ele submete ao sono aqueles que vivem na carne?" (Carta a Nicholas von Amsdorf) 

Lutero aqui argumenta a favor do "sono" da alma com base nas Escrituras, dizendo que não tinha NADA com o qual pudesse derrubar essa opinião [mortalista], e argumentando que a morte era um sono semelhante ao sono daqueles que vivem na carne. As citações que poderia passar aqui são inúmeras. Mas, para não me alongar muito, colocarei mais três citações do reformador, profundamente claras:
 
“Não há ali deveres, ciência, conhecimento, sabedoria. Salomão opinou que os mortos estão a dormir, e nada sentem absolutamente. Pois os mortos ali jazem, não levando em conta nem dias nem anos; mas, quando despertarem, parecer-lhes-á haver dormido apenas um minuto” (Exposição do Livro de Salomão, Chamado Eclesiastes, de Lutero) 
 
“Assim como alguém que dorme e chega a manhã inesperadamente, quando acorda, sem saber o que aconteceu: assim nós nos ergueremos no último dia sem saber como chegamos a morte e como passamos por ela. Nós dormiremos até que Ele venha e bata na pequena sepultura e diga: Dr. Martinho, levanta-te! Então eu me erguerei num momento e serei feliz com Ele para sempre” (The Chrislian Hope-pág.37) 

“Nós devemos aprender a ver nossa morte com a luz correta, de forma que não fiquemos alarmados por causa dela, como o descrente faz; porque em Cristo ela não é de fato morte, mas um fino, doce e breve sono, que nos traz libertação deste vale de lágrimas, do pecado e do temor e extremidade da verdadeira morte e de todos os desfortúnios desta vida, e nós devemos estar seguros e sem cuidado,descansando docemente e gentilmente por um breve momento, como em um sofá, até o tempo quando ele nos chamar e nos acordar juntamente com todos seus queridos filhos para sua eterna glória e gozo. Pois já que nós o chamamos de sono, nós sabemos que não ficaremos nele, mas seremos novamente acordados e vivificados, e que o tempo durante o qual dormimos, não parecerá mais longo do que se nós tivéssemos apenas caído no sono. Daí nós devemos nos censurar por estarmos surpresos ou alarmados com tal sono na hora da morte, e de repente formos revividos da cova e da decomposição, e inteiramente bem, novo, com uma pura, clara e glorificada vida, encontrarmos nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nas nuvens” (Compend of Luther’s Theology, editado por Hugh Thomson Kerr, Jr., p. 242)

Aí você poderia argumentar: "Mas Lucas, veja que Lutero mudou de opinião depois"! Certamente que sim. Porém, ele mudou de opinião com base nas Escrituras ou com base na influência esmagadora do imortalismo em seus dias? Só para provar a segunda tese, deixo aqui um texto de Lutero depois que ele havia sido infleunciado a mudar de opinião, e note que ele passou a acreditar até mesmo na oração pelos mortos! Vejamos: 

"De novo se objeta: "Se as almas suportam as penas de bom grado, por que oramos por elas?". Respondo: se não as suportassem de boa vontade, certamente estariam condenadas. Mas será que por isso não devem desejar orações? Pois também o apóstolo desejou que se fizessem orações por ele, para que fosse livrado dos descrentes e se lhe abrisse uma porta à palavra. Não obstante, era ele quem, cheio de toda confiança, se gloriava de desdenhar a morte. Mesmo que as almas não desejassem orações, é nosso dever condoer-nos de seu sofrimento e socorrê-las através da oração, assim como a quaisquer outros, por mais corajosamente que sofram" (Martinho Lutero, "Explicações do Debate sobre o Valor das Indulgências") 

Note que Lutero, após ter sido tomado pela influência imortalista dos outros de seus dias, passou a acreditar até mesmo na intercessão dos santos (que é crida até hoje pela Igreja Luterana) e nas nossas orações por eles! Igualzinho os católicos! Aí, então, você tem somente duas saídas quanto a isso: 

a) Acreditar no Lutero que via pela Bíblia que a imortalidade da alma é uma doutrina mentirosa. 

b) Ou então acreditar no Lutero que sofreu influências católicas e passou a crer não somente na imortalidade da alma como é crida hoje na maioria das igrejas protestantes, mas também na intercessão dos santos e na oração pelos mortos, da forma praticada pela Igreja de Roma! 

Eu fico estupefato em ver que os protestantes geralmente recortam Lutero pela metade e querem seguir uma doutrina que ele jamais pregou, tentando fazer de conta que ele ensinava tal coisa e ainda por cima jogando na conta dele! Pois, se eles fossem sinceros e honestos, ou iriam admitir o Lutero que CONDENAVA a imortalidade da alma, ou então iriam passar a aprovar a oração pelos mortos e a intercessão dos mortos, visto que tal coisa foi pregada por Lutero depois que ele mudou de opinião.
 
A única coisa que vocês não podem fazer é montar um "falso Lutero" que jamais existiu, tentando imaginar alguém que prega a imortalidade da alma mas que condena a intercessão dos santos e oração pelos mortos. Por favor, não façam mais isso, pois Lutero nunca pregou desta forma!!! Ou vocês admitem que a imortalidade da alma é falsa (como Lutero pregou no início), ou então admitem também a oração pelos mortos (como Lutero passou a pregar depois). Só o que não podem é ficar num "meio termo" e colocar na conta de Lutero uma doutrina que é pregada nos dias de hoje e que Lutero jamais defendeu. Eu, particularmente, prefiro ficar com o Lutero bíblico do que com o Lutero "romano" influenciado. Você escolhe quem você quiser. 

Para terminar, notei também que Calvino citou alguns pais da Igreja para sustentar a sua posição. Infelizmente, ele fez isso citando Padres da segunda metade do século II, do século III, IV e V. Ou seja, não citou NENHUM do primeiro século ou do início do segundo (os quais eu tenho armazenado eu meu computador muita informação contra a imortalidade da alma nos escritos deles!). Justino Mártir (100 d.C), por exemplo, afirmou que aqueles que pregavam que as almas eram elevadas ao Céu no ato de morrer (antes da ressurreição geral dos mortos), não podiam ser considerados cristãos! Vejamos: 

"Além disso, eu indiquei-lhe que há alguns que se consideram cristãos, mas são ímpios, hereges, ateus, e ensinam doutrinas que são em todos os sentidos blasfemas, ateístas e tolas. Mas, para que saiba que eu não estou sozinho em dizer isso a você, eu elaborarei uma declaração, na medida em que puder, de todos os argumentos que se passaram entre nós, em que eu devo registrá-las, e admitindo as mesmas coisas que eu admito a você. Pois eu opto por não seguir a homens ou a doutrinas humanas, mas a Deus e as doutrinas entregues por Ele. Se vós vos deparais com supostos Cristãos que não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no ato de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis Cristãos. Mas eu e os outros, que somos cristãos de bem em todos os pontos, estamos convictos de que haverá uma ressurreição dos mortos, e mil anos em Jerusalém, que será construída, adornada e alargada, como os profetas Ezequiel e Isaías e outros declaram" (Diálogo com Trifão, Cap.80) 

É verdade que os cristãos passaram depois disso a serem influenciados pela crença platônica fortemente crida na época acerca da imortalidade da alma, especialmente quando filósofos gregos (como Taciano, Teófilo e o próprio Justino) se converteram ao Cristianismo, mas trouxeram consigo certas "marcas" (crenças) que eram fortemente estabelecidas na época pelos gregos. Isso explica o porquê que os pensadores cristãos de épocas posteriores pregavam a doutrina da imortalidade da alma.
 
Porém, cabe-se ressaltar que eles começaram pregando uma imortalidade condicional, onde só se alcança a imortalidade quem serve a Deus, e as almas dos ímpios são destruídas após a morte. Leia com atenção os escritos de Taciano Sírio e de Teofilo de Antioquia que você constatará isso com facilidade. E somente depois que a imortalidade incondicional da alma (a justos e a ímpios) começou a ser crida na Igreja. Porém, vale ressaltar que houveram Pais da Igreja que denunciavam que tal doutrina era uma "novidade" (coisa recente) na Igreja, e não algo que remetia aos apóstolos. Veja, por exemplo, a declaração de Arnóbio (Séc.III): 

"Não há motivo, portanto, que nos engane, não há motivo que nos faça conceber esperanças infundadas aquele que se diz por alguns pensadores recentes e fanáticos pela excessiva estima de si mesmos que, as almas são imortais” (Arnóbio, op. cit., Liv. II, 14-15; pag. 51) 

Note que Arnóbio denunciava que a crença na imortalidade incondicional da alma era crida somente por pensadores "recentes e fanáticos", e não algo que já era crido desde o início da Igreja. Podemos resumir o pensamento em três épocas distintas:

Século I até meados do século II - Mortalidade da alma. 

Meados do Século II até parte do século III - Imortalidade condicional da alma.

Século III e IV em diante - Imortalidade incondicional da alma (como é crida nos dias de hoje). 

Soma-se a isso as declarações de Agostinho de Hipona (Séc.IV) sobre a imortalidade da alma. Sendo ele o bispo mais famoso e influente na história da Igreja, esta doutrina ganhou bastante força até ser crida por unhas e dentes por pessoas como Calvino, que, infelizmente, analisam somente parte da História Cristã, e acham que estão com a razão.
 
Um abraço e que Deus lhe abençoe.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli.


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2 comentários:

  1. olá, Lucas!! poderia me enviar por email o texto completo do Diálogo de Justino com Trifão... Só o encontrei parcialmente... Ficaria agradecido uilliambarros@hotmail.com

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