Desmistificando a lenda de uma alma imortal

14 de dezembro de 2012

Refutando as alegações imortalistas quanto ao Antigo Testamento


Há um arsenal ilimitado de passagens e descrições veterotestamentárias que refutam a imortalidade incondicional da alma e nos demonstram um quadro bíblico de um estado inconsciente dos mortos. Embora existam pelos menos 206 provas contra a imortalidade da alma, a maioria neotestamentária, irei me limitar neste presente artigo apenas ao Antigo Testamento.  

Já vi as mais diferentes formas de refutação da parte deles, mas nenhuma convincente ou que não escancarasse uma interpretação inteiramente tendenciosa, sem qualquer critério sólido ou consistente, a qual eles mesmos não iriam embarcar caso não estivessem presos e pré-condicionados a crerem deste modo. Primeiramente, vamos a algumas das evidências bíblicas no AT quanto a um estado inconsciente dos mortos: 

Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará?” (Salmos 6:5)

“No Sheol, ninguém te agradeceninguém louva o teu nome, os que estão ali não confiam na tua fidelidade. São os vivos, e somente os vivos, que te louvam, como eu te louvo agora” (Isaías 38:18,19)

“Será que fazes milagres em favor dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam? Será que no mundo dos mortos ainda se fala do teu amor? Será que naquele lugar de destruição se fala da tua fidelidade? Será que naquela escuridão são vistos os teus milagres? Será que na terra do esquecimento se pode ver a tua fidelidade?” (Salmos 88:10-12)

”Os céus pertencem somente ao Senhor, mas a terra ele deu aos seres humanos. Os mortos, que descem à terra do silêncio, não louvam a Deus, o Senhor. Mas nós, que estamos vivos, daremos graças ao Senhor agora e para sempre. Aleluia! (Salmos 115:16-18)

”Não se escondas de mim para que eu não seja como aqueles que descem ao Sheol (Salmos 143:7)

”Não ponham a sua confiança em pessoas importantes, nem confiem em seres humanos, pois eles são mortais e não podem ajudar ninguém. Quando eles morrem, voltam para o pó da terra, e naquele dia perecem os seus pensamentos. Feliz aquele que recebe a ajuda do Deus de Jacó, aquele que põe a sua esperança no Senhor, seu Deus, o Criador do céu, da terra, do mar e de tudo o que neles existe!” (Salmos 146:3-6) 

”Quem está entre os vivos tem alguma esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto. Pois os vivos sabem que vão morrer, mas os mortos não sabem de coisa nenhuma, nem tampouco tem eles recompensa, e a sua memória jaz no esquecimento. Também o amor, o ódio e a inveja há muito desapareceram, nunca mais terão parte em nada do que acontece debaixo do sol” (Eclesiastes 9:4-6) 

O que as suas mãos tiverem que fazer, que o faça com toda a sua força, pois no além, para onde vais,não há obra, nem projeto, nem conhecimento e nem sabedoria alguma (Eclesiastes 9:10) 

Evidentemente, existem inúmeros outros textos bíblicos que tratam explicitamente da inconsciência pós-morte no AT; porém, me reservo a comentar que somente nestes textos bíblicos acima já podemos extrair que: 

1. Os mortos não podem louvar a Deus, mas somente os vivos – Sl.6:5; Is.38:19. 

2. No Sheol (“morada dos mortos”) não há lembrança de Deus – Sl.6:5. 

3. No Sheol Deus não é louvado e nem lembrado – Sl.6:5; Is.38:18,19.

4. Os que estão no Sheol não confiam na fidelidade de Deus – Is.38:18. 

5. O Sheol é um local de escuridão – Sl.88:12. 

6. O Sheol é uma terra de esquecimento, e não de memória – Sl.88:12. 

7. Deus está “escondido” daqueles que estão no Sheol – Sl.143:7. 

8. Ao morrer, os pensamentos perecem – Sl.146:4. 

9. Um cachorro vivo vale mais do que um leão morto – Ec.9:4. 

10. Os mortos não sabem de coisa nenhuma – Ec.9:5. 

11. A memória dos mortos jaz no esquecimento – Ec.9:5. 

12. Sentimentos como o amor já desapareceram para eles – Ec.9:5. 

13. No além não há obra, nem projeto, nem conhecimento e nem sabedoria alguma – Ec.9:10. 

Notem que essas observações que eu fiz acima não são nem de longe interpretações minhas do texto bíblico (o que poderia também ser feito sem qualquer problema), mas sim aquilo que explicitamente está no texto bíblico. Portanto, enquanto os próprios imortalistas admitem que a imortalidade da alma não se encontra explicitamente na Bíblia, nós sim podemos dizer que ela é explicitamente negada, e o holismo é expressamente pregado em toda a Escritura. Mas como toda falsa doutrina e heresia encontra pseudo-refutações (algumas que beiram o ridículo, outras que parecem menos insensatas), não é diferente com os imortalistas.  

Embora cada um deles tenha um “método de refutação” diferente, no final todos eles acabam arrumando desculpas para não acreditar na obviedade do texto bíblico em pauta. Vou começar pela exposição e refutação daquelas explicações que eu considero as mais ridículas, e depois passarei para as menos insensatas.


Objeção 1: Os autores estavam falando de uma perspectiva terrena. Os adeptos deste ponto de vista alegam que essas passagens se referem apenas em relação a essa presente vida, ou seja, que os autores não estão falando do pós-morte, mas em relação a nós. Em outras palavras, quando Salomão afirma em Eclesiastes que “os mortos não sabem de nada”, o que ele queria dizer na verdade é que “os mortos não sabem de nada do que se passa aqui”.  

Sinteticamente, eles ignoram todas as passagens bíblicas simplesmente dizendo que se refere a terra, aos viventes, e não ao estados dos mortos propriamente dito. Essa tentativa de explicação eu considero de todas a mais fracassada e a mais absurda, pois ela ignora inúmeros textos bíblicos que explicitamente estão falando do estado dos mortos e não em relação aos vivos ou a este mundo.  

Embora em algumas ocasiões isoladas essa explicação “funcione” por se encaixar com a perspectiva deles (como em Eclesiastes 9:5, por exemplo), em outros textos bíblicos fica claramente óbvio e exposto a fraqueza dessa “refutação”. Por exemplo, em Eclesiastes 9:10 Salomão não falava em relação ao “debaixo do sol”, mas sim “no além”: 

O que as suas mãos tiverem que fazer, que o faça com toda a sua força, pois no além, para onde vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento e nem sabedoria alguma (Eclesiastes 9:10) 

Essa é uma tradução da palavra hebraica Sheol, que os imortalistas dizem que é a morada consciente dos mortos, para onde tanto justos como ímpios partiam após a morte, nos tempos do Antigo Testamento. Pois bem: Salomão declara que é lá nesse lugar que os mortos não fazem obra alguma, nem projeto, nem tem conhecimento e nem sabedoria de nada! Ou seja: estava falando do além, do pós-morte, e não daquilo que acontecia “debaixo do sol”. Quer outro exemplo? Vá a Isaías 38:18,19, que diz: 

“No Sheol, ninguém te agradeceninguém louva o teu nome, os que estão ali não confiam na tua fidelidade. São os vivos, e somente os vivos, que te louvam, como eu te louvo agora” (Isaías 38:18,19) 

Por que Isaías faz tanta questão de ressaltar “os vivos e somente os vivos”? Simplesmente dizer “os vivos” já não ficaria claro? Obviamente. Porém, a intenção aqui do autor era ressaltar o contraste entre vivos e mortos. Os vivos podem louvar a Deus, os mortos não. Na verdade, Isaías estava apenas reproduzindo as palavras do rei Ezequias, que, já próximo da morte, teve mais quinze anos acrescentados à sua vida.  

Então ele declarou essas palavras de gratidão a Deus, alegando que ele só poderia louvá-Lo se continuasse vivo, como de fato continuou. Aqui nós temos que usar de bom senso e lógica: se Ezequias sabia que existia vida no pós-morte e consciência, então ele poderia louvar a Deus tanto lá quanto aqui! Não haveria este contraste tão nítido entre ambos, e este rei, mesmo depois de morto, iria poder continuar louvando a Deus assim como os viventes podem.  

Porém, este contraste serve para ressaltar que Ezequias somente continuaria consciente para poder louvar a Deus se ele continuasse entre os vivos. E isso desmonta com a interpretação daqueles que dizem o contrário! Ademais, notem que ele também afirma que lá no Sheol ninguém agradece a Deus. Ele não está falando apenas dele próprio, ele está falando “ninguém”! Não é possível agradecer a Deus no Sheol!  

Agora imagine você morrendo e indo conscientemente a algum lugar após a morte, e não poder nem ao menos agradecer a Deus! Você pode agradecer a Deus aqui na terra, mas depois que morrer vai ter que ficar calado! Dá pra imaginar uma aberração dessas? Pois é, é por isso que eu considero essas “explicações” deles realmente: ridículas!


Objeção 2: Eles estavam falando apenas do corpo, e não da alma. Embora eu tenha ficado seriamente em dúvida se considerava essa explicação ou a explicação acima a mais ridícula, o fato é que essa é uma forte concorrente. Para esse outro grupo, em absolutamente todas as passagens acima os autores estavam apenas retratando o destino do corpo e não da alma.  

Convenhamos: você acha que os autores bíblicos iriam desperdiçar o tempo deles fazendo descrições de um mero corpo morto que já virou pó, quando poderiam ter a oportunidade de descrever o que seria muito mais importante, que seria o lado consciente e racional que os imortalistas atribuem a alma? Lógico que não! Além disso, fato é que os próprios imortalistas associam o “verdadeiro eu” (i.e, o lado racional, a consciência humana) à alma ou ao espírito. Eles dizem que você é um espírito, possui uma alma e habita em um corpo (eles tiraram isso muito mais dos livros de Kenneth Haggin e do Allan Kardec do que da Bíblia).  

Em outras palavras, este seu corpo é um mero revestimento, pois a sua consciência, racionalidade, fonte dos pensamentos, é tudo relacionado à alma, e não ao corpo. O interessante é que o salmista disse explicitamente que na morte “os pensamentos perecem” (Sl.6:5). Você quer ver como os imortalistas são desonestos? É só passar este texto pra eles! Eles vão falar que está falando apenas do corpo!  

Isso é muito curioso: o tempo todo a sede dos pensamentos é associada à alma para eles, mas quando chegamos a uma passagem bíblica que explicitamente diz que estes pensamentos perecem após a morte, aí não é mais a alma, é o corpo! Uau! Fantástica linha de interpretação bíblica! Eu realmente fico impressionado com a capacidade de malabarismos que estes proponentes têm a nos mostrar. É uma linha de interpretação mais tendenciosa e mirabolante do que a outra!  

Eles afirmam que Paulo, ao dizer que “eu desejo partir e estar com Cristo” (outra passagem deturpada que eu já tive que explicar mil vezes e mostrar que ela em seu devido contexto é um golpe de morte na doutrina deles mesmos), estava falando que este “eu” não era o seu corpo, mas a sua alma. Mas quando os escritores bíblicos falam exatamente a mesma coisa dizendo que os seus pensamentos perecem após a morte, aí não é mais a alma, é o corpo.  

E quando Deus fala a Daniel que você descansará, e então, no final dos dias, você se levantará para receber a herança que lhe cabe” (Dn.12;13), aí também Deus estava falando apenas com o corpo de Daniel, mas não com o ser racional pensante (alma) dele! Isso porque essa passagem é outro golpe de morte na doutrina deles. Note que Deus fala diretamente a Daniel, ele diz que “você descansará... você se levantará”. Ele não estava falando apenas com a “carcaça”, ele estava falando com o ser pensante, racional, o verdadeiro “eu”, que para os imortalistas é a alma. Portanto, a passagem se aplica a alma.  

Mas quando eles veem que essa mesma passagem fala em descansar e se levantar (i.e, morrer e ressuscitar) para somente no final dos tempos entrar na sua herança celestial, aí a conversa muda, não é mais alma não, é só o corpo mesmo! Ressurreição? Só corpo, não alma! Jogue no lixo Apocalipse 20:4! Mutile o Salmo 48:8,9! E quanto às mais de 75 passagens bíblicas que falam que os mortos estão dormindo? Simples: é só o corpo!  

Então, a regra exegética dos imortalistas baseia-se no seguinte: se o texto bíblico fala do “eu” dormindo, ressuscitando, inconsciente, etc, aí é só o corpo, nada de alma não. Mas se algum texto bíblico semelhantemente falar do “eu” com alguma inferência (por mais mirabolante e tendenciosa que possa ser) que possa vir a ser uma “prova” da imortalidade da alma, aí sim, olha a alma ali! E viva a imortalidade da alma!  

Falando seriamente, a exposição dos métodos utilizados pelos imortalistas apenas demonstra como que eles jogam na lata do lixo a exegese e a hermenêutica, sendo extremamente parciais e tendenciosos (alguns até desonestos) na sua interpretação de um texto bíblico, apenas como fruto do desespero para salvar as suas teses. Eles tentam “explicar” um texto bíblico tão óbvio com “interpretações” que de tanto inventar acabam apenas complicando ainda mais as coisas. A regra básica da exegese é nunca negar a obviedade de um texto. É uma pena que não ensinaram isso para eles.


Objeção 3: O Antigo Testamento não vale, só o Novo! Essa talvez seja a menos ridícula de todas as explicações, e particularmente se eu fosse imortalista eu ficaria com ela, pois ela é a única que é intelectualmente honesta, e não desonesta como todas as demais são. As outras explicações são tão ridículas que cabe pensar se algum cidadão honesto consegue ler o texto bíblico e ainda dizer um negócio daqueles. Mas essa – que também é bastante adotada por muitos – pelo menos já começa com uma vantagem: ela é suficientemente honesta para admitir que aquelas passagens todas são realmente provas de que os autores do AT não criam na imortalidade da alma (excetuando os casos em que alguns sujeitos dizem isso e depois mostram passagens do AT para sustentar o lado deles!).  

Porém, eles dizem que o NT “trouxe a luz” da imortalidade da alma a todos. O AT era um período de trevas sobre o assunto da vida após a morte, ninguém sabia nada, mas com o NT alguém começou a pregar a imortalidade da alma e todo mundo ficou sabendo dela. Por isso, já virou moda eu debater com alguém sobre a imortalidade da alma e este alguém me dizer que “não vale eu usar passagens do AT, só vale do NT” 

Embora nestes casos eu faça questão de lançar mão de todo o arsenal neotestamentário contra a imortalidade da alma (e que é indiscutivelmente maior do que o do AT), eu faço isso não por concordar com o argumento, mas para que este argumentador não me dê mais desculpas para não crer em uma doutrina bíblica. É como discutir com um judeu: não vale você usar o NT contra ele, você tem que provar pelo AT que Jesus Cristo é o Messias prometido.  

Mas esses anti-veterotestamentários são exatamente o inverso: para eles, não vale usar o AT, só vale o NT! Eu gosto muito de jogar Age of Empires III online com algumas pessoas. O interessante é algumas dizerem: “não vale usar essa civilização, tem que usar aquelas outras...”. É claro que pode, mais o sujeito insiste em impedir isso porque sabe que perderia o jogo se eu fizesse uso da civilização X. E aqui é a mesma coisa: é claro que o AT vale, mas eles não querem que nós o usemos, pois sabem que, se isso for feito, é xeque-mate na certa. Então, melhor dizer que não vale!  

Mas como podemos refutar essa posição deles? Simplesmente dizer que o AT está na Bíblia tanto quanto o NT não é suficiente. Eles vão dizer que a circuncisão, a guarda do sábado e outros ritos cerimoniais, festas judaicas, lei mosaica, foi tudo abolido na Nova Aliança. E pra eles a mortalidade da alma foi junto e a alma se tornou imortal, ou melhor, “descobriram” isso! Ocorre aqui que o que foi abolido na Antiga Aliança não tem nada a ver com assuntos sobre vida após a morte, mas sim com a lei cerimonial, isto é com o lado cerimonial da lei que impunha uma série de obrigações ao povo judaico, a maioria da qual foi abolida por Cristo na Nova Aliança, chegando ao fim desde que Jesus ressuscitou.  

Desde que Jesus ressuscitou não precisamos mais nos circuncidar no oitavo dia, não precisamos mais celebrar um ano do Jubileu, não precisamos de mais cidades de refúgio, não precisamos festejar a festa do Purim, guardar o sábado da maneira judaica, sacrificar um cordeiro todos os dias, etc. Porque essas coisas chegaram fazem parte da lei cerimonial judaica, e foi substituída por alguma outra coisa no NT.  

Por exemplo, a circuncisão foi substituída pelo batismo, o sacrifício de cordeiros foi substituído pelo sacrifício do Cordeiro de Deus (Jesus Cristo), o sábado representava o descanso celestial eterno, e assim por diante. Mas a imortalidade ou mortalidade da alma não é uma obrigação cerimonial da lei judaica! Ou seja: não tem nada a ver!!! Impossível que a alma fosse mortal até Jesus morrer na cruz e imortal depois que Ele ressuscitou! Isso não tem nada a ver com as cerimônias judaicas que foram abolidas no Novo Concerto! Prova disso é que os próprios pregadores da imortalidade da alma (sejam católicos ou protestantes) pregam muitas coisas provenientes do AT.  

Para ser mais sincero, a maioria das pregações atuais baseiam-se muito mais no AT do que no NT! Pregam sobre os patriarcas, sobre os reis de Israel, sobre os Dez Mandamentos, sobre o dízimo, sobre não fazer imagens de escultura baseando-se em Êxodo 20:4 (que desde que me lembro se encontra no AT!), sobre não falar o nome de Deus em vão (outra coisa que só se encontra no AT e não no NT, mas mesmo assim todos consideram verdadeiro), sobre não praticar incesto (que por incrível que pareça só se encontra no AT e não no NT, e mesmo assim todos concordam que incesto é errado), enfim, pregam inúmeras coisas (doutrinas e práticas) baseando-se no AT.  

Isso significa que eles próprios creem na validade doutrinal do AT para os nossos dias (embora nem sempre confessem isso abertamente). Se eles creem também no AT, então isso significa que nem tudo do AT foi abolido. Temos, assim, que usar de critério para sabermos o que foi abolido e o que não foi. Não é simplesmente fazer como os imortalistas fazem: “bem me quer, mal me quer”“essa doutrina eu gosto, ela fica, mas essa eu não gosto, então ela foi abolida”. Não! Como em tudo na vida, não é o gosto pessoal que determina o que foi abolido e o que não foi. O que determina é aquilo que Paulo disse aos colossenses: 

“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Colossenses 2:14-17) 

Aqui Paulo fala sobre o que que Cristo aboliu (riscou) com a entrada da Nova Aliança. Ele afirma que Cristo riscou uma cédula de ordenanças, cravando-a na cruz. Ou seja: há coisas que Cristo deu um fim nelas depois que morreu! Então, para que a questão não ficasse por demais “vaga”, ele afirma expressamente o que é isso que Cristo aboliu: os ritos e leis cerimoniais da lei judaica relacionados à comida e bebida, aos dias de festa e sábados!  

Em outras palavras, ele diz que o que foi abolido diz respeito às práticas e ritos cerimoniais da lei judaica, como já foi explanado. É isso o que vai embora, e não assuntos como a vida após a morte, como alguns creem! É evidente que a vida após a morte não era um cerimonial ou rito da lei judaica.  

Portanto, as questões relacionadas aos ritos e cerimônias judaicas que estão prescritos na lei deles chegaram ao fim, mas os outros assuntos que não tem relação com a lei cerimonial continuam valendo, evidentemente. É por isso que incesto é proibido, que usar o nome de Deus em vão é pecado, que a imortalidade da alma é uma falsa doutrina. Porque o AT nega expressamente essas coisas, e elas não têm qualquer relação com “leis cerimoniais”! 

Sendo assim, aqui morre a pretensão daqueles que querem por um “fim” no AT naquilo que tange ao estado pós-morte. Não, Deus não deixou o povo em “trevas” no AT sem saber nada sobre a vida após a morte e os enganando fazendo-os pensar que não existia vida após a morte quando existia. Deus desde sempre deixou claro que a vida eterna é somente após a ressurreição, e isso desde os tempos do AT!  

Os que dizem que não, geralmente argumentam que o povo do AT não tinha conhecimento sobre os assuntos relacionados à vida após a morte, o que incluiria a ressurreição, evidentemente. Mas isso é puramente uma distorção da verdade. O Antigo Testamento ensina clara e explicitamente a ressurreição, tanto quanto nega clara e explicitamente a imortalidade da alma. É por isso que Daniel fala em ressurreição: 

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão [quwts], uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12:2) 

É por isso que Isaías também explicitamente fala em ressurreição: 

Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão [quwts]; despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho será como o orvalho das ervas, e a terra lançará de si os mortos”(Isaías 26:19) 

E é por isso que o salmista também usa exatamente a mesma palavra no hebraico utilizada por Daniel e por Isaías para descrever a ressurreição, em um contexto em que ele deixa claro que ele só veria a Deus depois que “despertasse” [quwts – ressuscitar], e não antes disso: 

“Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar [quwts], ficarei satisfeito em ver a tua semelhança” (Salmos 17:15) 

A ressurreição aparece outras incontáveis vezes no AT de forma indireta, mas só de mostrar que Davi, Isaías e Daniel escreveram explicitamente sobre a ressurreição (e ainda dizendo que só obteriam vida eterna e veriam a Deus depois dessa ressurreição ter se consumado) já nos deixa claro e lúcido que os autores do AT tinham sim uma visão concreta sobre o que aconteceria após a morte. Assim como acontece dezenas de vezes no NT, os escritores do AT também falavam sobre ressurreição, também diziam que obteriam vida somente após ela ter se consumado e também criam que o estado pós-morte era um “sono”: 

“Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte” (Salmos 13:3) 

Portanto, tendo em vista tudo isso, dizer que as provas bíblicas abundantes que negam explicitamente a imortalidade da alma com uma objetividade e obviedade incontestável “não valem” somente porque estão no AT, alegando que os escritores bíblicos daquela época não tinham conhecimento sobre a vida após a morte, é totalmente errado porque: 

1º Eles mesmos creem em muitas coisas que estão no AT (mesmo naquelas que não são explicitamente repetidas no NT, tais como não fazer imagens de escultura, não usar o nome de Deus em vão e não praticar incesto). 

2º O que chegou ao fim na Nova Aliança diz respeito à lei cerimonial judaica relacionada aos ritos e ordenanças prescritos ao povo judeu na época da Antiga Aliança. Não tem absolutamente nada a ver com a crença ou descrença na mortalidade ou imortalidade da alma e no estado dos mortos. 

3º E porque os escritores do AT tinham sim uma visão concreta sobre o que aconteceria depois da morte. Eles escreviam explicitamente sobre o sono da morte, sobre ressurreição e sobre julgamento, assim como os escritores do NT, que não mudaram nada daquilo que os autores do AT acreditaram e escreveram sobre isso; pelo contrário, reiteraram a realidade de que a morte é um sono, que a vida eterna é depois da ressurreição e do juízo para condenação final. 

4º Portanto, é de todo incoerente dizer que o AT “não vale”. Se Deus havia revelado a eles a ressurreição dos mortos, por que iria “esconder” a imortalidade da alma deles? O que Ele ganharia com isso? Tudo o que iria fazer seria deixá-los confusos, crendo em uma mentira, e pior ainda: escrevendo na Bíblia, a Palavra de Deus inspirada, infalível e inerrante, que a alma morre (Ez.18:4,20), é destruída (Ez.22:27), não é poupada da morte (Sl.78:50), é eliminada (Êx.31;14), é totalmente destruída (Js.10:28), é devorada (Ez.22:25), é assassinada (Nm.35:11), é exterminada (At.3:23) e desce a cova na morte (Jó 33:22). E, além disso, que... 

1. Os mortos não podem louvar a Deus, mas somente os vivos – Sl.6:5; Is.38:19. 

2. No Sheol (“morada dos mortos”) não há lembrança de Deus – Sl.6:5. 

3. No Sheol Deus não é louvado e nem lembrado – Sl.6:5; Is.38:18,19. 

4. Os que estão no Sheol não confiam na fidelidade de Deus – Is.38:18. 

5. O Sheol é um local de escuridão – Sl.88:12. 

6. O Sheol é uma terra de esquecimento, e não de memória – Sl.88:12. 

7. Deus está “escondido” daqueles que estão no Sheol – Sl.143:7. 

8. Ao morrer, os pensamentos perecem – Sl.146:4. 

9. Um cachorro vivo vale mais do que um leão morto – Ec.9:4. 

10. Os mortos não sabem de coisa nenhuma – Ec.9:5. 

11. A memória dos mortos jaz no esquecimento – Ec.9:5. 

12. Sentimentos como o amor já desapareceram para eles – Ec.9:5. 

13. No além não há obra, nem projeto, nem conhecimento e nem sabedoria alguma – Ec.9:10. 

E contra isso não há lei. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo. 

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli.


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